terça-feira, 4 de novembro de 2025

XB: Galáxia Proibida

 XB: Galáxia Proibida (1982)

Começavam os anos 1980 e filmes de ficção cientifica como Alien e a trilogia original de Star Wars arrecadavam milhões nas bilheterias. Com o exploitation em sua era de ouro, era natural que surgissem inúmeras cópias vagabundas dessas obras, buscando explorar o fascínio do público e arrecadar o máximo de dinheiro possível com o mínimo de esforço e investimento.

O lendário produtor de filmes B Roger Corman investiu nesse “filão” e produziu Mercenários das Galáxias (1980), uma cópia muito absurda de Star Wars, e Galáxia do Terror (1981), uma cópia muito vagabunda de Alien, a qual contou com uma das primeiras atuações de Robert Englund, que seria futuramente o vilão Freddy Krueger na franquia A Hora do Pesadelo.

Roger Corman

Mercenários das Galáxias (1980)

Galáxia do Terror (1981)

Depois desses “sucessos”, Corman resolveu reaproveitar alguns dos cenários que sobraram de suas obras anteriores e fazer outro filme. Com um roteiro de Tim Curnen e com a direção de Allan Holzman, XB: Galáxia Proibida foi concebida como uma óbvia cópia de Alien, inicialmente com os títulos de Mutant e Subject 20, tendo como base um roteiro de RJ Robertson e Jim Wynorski (diretor e roteirista de Chopping Mall, 1986, já resenhado aqui no blog).

Em um futuro distante, Mike Colby (Jesse Vint), é uma espécie de técnico/viajante espacial, o qual viaja pelas estrelas junto com a robô SAM-104 (Don Olivera). SAM-104 está comandando a nave, quando são atacados por piratas espaciais. A robô desperta Mike do sono criogênico e ambos enfrentam e derrotam os piratas.

A cena inicial já revela o tom geral que o filme vai ter. SAM-104 é obviamente uma fantasia de stormtrooper reaproveitada. A batalha no espaço foi montada reutilizando cenas de Mercenários das Galáxias e é muito genérica, com miniaturas de naves disparando feixes de luzes coloridas umas nas outras, sem nenhum contexto, enquanto Mike e SAM-104 disparam frases genéricas como “Preparar torpedos de plasma.”, “Campo de força caindo para 53%.”, “Disparar tasers.”.

Depois de vencer os piratas, a dupla é informada que deve se dirigir ao planeta Xarbia, no qual existe um laboratório de pesquisas onde parecem estar ocorrendo alguns problemas, os quais Mike pode ajudar a resolver.

Logo ao pousar no planeta, Mike e SAM-104 são recebidos pelo Dr. Gordon Hauser (Linden Chiles) e pela Dra. Barbara Glaser (June Chadwick), a qual logo se interessa muito por Mike. O Dr. Gordon leva Mike ao laboratório principal, que se encontra em um estado deplorável, com os cadáveres destroçados de várias cobaias animais, as quais teriam sido mortas por um dos experimentos do laboratório, chamado de Sujeito 20, o qual teria conseguido escapar e massacrado as cobaias. 


Estranhamente, o Sujeito 20 retornou tranquilamente para a sua incubadora, onde se isolou em um casulo de metamorfose. Apesar da cena grotesca, nenhum dos presentes parece se importar muito, principalmente o Dr. Cal Timbergen (Fox Harris), o médico da base, que fuma e tosse sem parar.

Após conferirem os estragos, o Dr. Gordon ordena ao técnico de laboratório Jimmy Swift (Michael Bowen) para que limpe o laboratório dos restos sangrentos das cobaias mortas, enquanto o resto da equipe vai se reunir no refeitório. Jimmy, que é tonto, resolve abrir a porta da incubadora onde o Sujeito 20 está confinado, apenas por mera curiosidade.

É obvio que o Sujeito 20 sai de seu casulo e ataca Jimmy, grudando em seu rosto como uma espécie de lesma negra. Jimmy, como muitos personagens de filmes de terror, esquece como usar as próprias mãos e, ao invés de apenas agarrar a criatura e arrancá-la de seu rosto, apenas se debate de forma histérica, rodopiando pelo laboratório, agitando os braços e termina derrubado ao solo logo em seguida.

Enquanto isso, Mike é informado pelo eletricista da base, Brian Beale (Raymond Oliver) de que o Sujeito 20 é um experimento criado originalmente como uma forma de combater a escassez de alimentos. Usando um composto de DNA alienígena chamado Proto B como base e o mesclando com outros tipos de DNA, os cientistas buscam criar uma fonte infinita de proteínas. Mike questiona qual o DNA que foi mesclado para criar o Sujeito 20, mas recebe apenas silêncio e recusas do Dr. Gordon, que parece guardar um segredo bastante aterrador, que amedronta inclusive o restante de sua equipe.

Mike sugere destruir o Sujeito 20, de modo a garantir a segurança da base. Entretanto, o Dr. Gordon reage de forma revoltada a sugestão, declarando que o Sujeito 20 é importante demais para ser simplesmente destruído. Nesse momento, a assistente de laboratório Tracy Baxter (Dawn Dunlap) encontra o corpo de Jimmy e grita de horror. O grito alerta os demais membros da equipe, que correm ao laboratório.

Imediatamente fica claro que o Sujeito 20 está solto na base e apresenta grande risco para todos ali. Apesar do nervosismo geral, os cientistas e auxiliares resolvem atuar da forma mais profissional possível. Ou seja, não fazer nada sobre o perigo iminente e tomar as atitudes mais estupidas possíveis. Logo de início, a Dra. Barbara resolve seduzir Mike, usando um roupão minúsculo e dando início a um diálogo de fazer inveja a qualquer filme pornô de baixo orçamento.

Barbara: “ Ouvi dizer que você é o maior solucionador de problemas desta parte da galáxia .”

Mike: “ É o que me dizem. ”

Barbara: “ Que tal me ajudar a resolver um… problema? ”

Após esse diálogo super bem elaborado, Bárbara e Mike partem para os finalmentes. Entretanto, enquanto casal se joga na cama, o chefe de segurança da base, Earl Richards, exercita seu voyeurismo e observa a atividade do casal através do sistema de câmeras de vigilância, enquanto manipula um brinquedo de criança (em uma referência óbvia a masturbação). Ao mesmo tempo, Tracy está em seu quarto, chorando pela morte de Jimmy, com quem ela tinha um relacionamento amoroso.

Enquanto Mike e Bárbara se divertem e Earl observa, o Dr. Cal examina o corpo do pobre Jimmy e descobre que ele ainda está, de alguma forma, vivo. Entretanto, o corpo está passando por uma mutação, se convertendo em uma espécie de forma biológica base formada unicamente por proteínas.

Tracy acorda na manhã seguinte, ainda abalada pela perda de Jimmy. Depois de colocar um par de óculos escuros (muito úteis em um local fechado) e se dirige para a sauna da base. Afinal, toda base científica que se preze tem que ter sua sauna. É um elemento indispensável para o trabalho científico. Enquanto Tracy relaxa na sua (nua, obviamente), Mike entra na sala e dá início a uma cena constrangedora, com ele olhando descaradamente o corpo da mulher, sem nenhuma noção do quão invasivo está sendo.

Nosso herói, que não perdoa nenhuma, pouco depois de terminar sua atividade com a Doutora Barbara, já parece disposto a se divertir com a outra mulher da base. Estranhamente, Tracy, pouco depois de perder seu namorado, logo se interessa por Mike e começa se insinuar para ele. E temos outro dialogo memorável:

Tracy: “Sabe de uma coisa? Parece que você realmente precisa de um banho de vapor!”

Mike: Bom, eu tive uma noite difícil.

Tracy: Então, justo é justo. Tire a roupa.”

O filme parece pronto a nos brindar com outra cena de sexo, quando o Sujeito 20 invade a sauna e Mike e Tracy tem que fugir.

Os efeitos do Sujeito 20 foram feitos pela dupla Robert e Dennis Skotak, conhecidos por terem trabalhado com James Cameron, auxiliados por John Carl Buechler, conhecido por seus trabalhos em vários filmes de terror como Troll (1986), Ghoulies (1985) e Re-Animator (1985). O design da criatura parece uma mescla entre uma aranha e um xenomorfo e aparece de corpo inteiro na cena mais "famosa" do filme (ou, pelo menos, a mais conhecida), quando o Dr. Gordon se depara com o monstro na entrada da base, após retornar de uma expedição ao exterior.

Os cenários reaproveitados dos filmes anteriores de Corman são até bem construídos e a direção faz realmente parecer que se trata de uma base relativamente grande, com várias salas e corredores diferentes. Um fato curioso é que os cenários de Galáxia do Terror (1981) foram desenhados por James Cameron, que foi o diretor de arte deste filme.

Por outro lado, os figurinos são bastante genéricos e as armas e equipamentos utilizados parecem ser restos de uma série de ficção cientifica dos anos 50.

Entretanto, a principal pérola do filme são as situações absurdas. Talvez a maior de todas seja quando a Dra. Bárbara e Tracy resolvem tentar se comunicar com o Sujeito 20. Como se isso já não fosse estúpido o suficiente, as duas mulheres resolvem que o melhor traje para realizar este contato seria dois minúsculos roupões de banho. É claro que isso não termina bem e a Dra. Barbara morre empelada por um tentáculo da criatura.

Como todo filme de Roger Corman, XB: Galáxia Proibida tem nudez gratuita (destaque para a cena de Barbara e Tracy tomando banho juntas), cenas de sexo softcore, atuações terríveis e cenários reutilizados. Tudo aliado a boas quantidades de gore e body horror. Além de tudo isso, a cara de pau de Corman é outro aspecto memorável desta obra. O produtor teria inclusive dito, certa vez, que esse filme foi a realização de seu desejo de fazer uma versão de Lawrence da Arábia (1962) no espaço (?????????????????).

É ruim? É muito ruim. Mas é muito divertido.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A Trilogia “Centopeia Humana”

 Filmes Porcaria #2:

A Trilogia “Centopeia Humana”

    
       Existem filmes que podem ser classificados como extremos, perturbadores e, até mesmo, nojentos. Alguns representantes dessa categoria são obras “Salò ou os 120 Dias de Sodoma” (1975), “Holocausto Canibal” (1980) ou “A Serbian Film” (2010). Tais obras não são para qualquer público e todo aquele que quiser assistir esse tipo de filme devem sempre ter em mente que seu conteúdo é muito diferente do habitual, muitas vezes com cenas intensas de violência, tortura, imagens psicodélicas e atitudes grotescas.

Particularmente, esse tipo de obra não costuma me atrair. Entretanto, como apreciador da sétima arte, já assisti a alguns desses filmes, procurando apreciá-los com a mente aberta e buscando compreender qual o objetivo com que a obra foi criada e qual o sentido artístico e critico que ela possui.

E foi com esse mesmo intuito que eu tive contato com a trilogia de filmes “Centopeia Humana”. Assisti aos três filmes em um final de semana das minhas férias e cheguei a uma conclusão imediata: Essas três montanhas de lixo não tem nenhum sentido e são meras porcarias feitas com o intuito de chocar um público ávido por coisas nojentas e pelo torture porn.

A Centopeia Humana (2009)

Com direção do execrável Tom Six (um diretor que parece gostar muito de si mesmo e acreditar piamente que é um gênio e suas obras são pura arte), esse filme conta a tragédia de duas amigas, Lindsay (Winter Williams) e Jenny (Ashlynn Yennie), que estão viajando juntas de carro pela Alemanha. Em certo momento, o carro apresenta problemas e as amigas acabam paradas no meio de uma estrada. Em busca de ajuda, as duas chegam a uma casa, onde mora o Dr. Josef Heitir (Dieter Laser), um excêntrico cirurgião.

Tom Six

               Não demora muito para Lindsay e Jenny perceberem que o Dr. Heitir não é uma boa pessoa e que está bastante louco. Ele droga as duas jovens e as leva até uma sala de cirurgia improvisada. O objetivo do insano cirurgião é unir as jovens junto com Katsuro (Akihiro Kitamura), um homem que já está preso nessa casa, em uma bizarra criatura, unindo as bocas destes indivíduos aos ânus dos outros indivíduos, formando um único sistema digestivo. Heitir já fez uma experiência similar antes, unindo três rottweilers, mas os infelizes animais acabaram morrendo.

A horrível experiência é realizada, com Katsumo na frente, Lindsay no meio (como punição pela jovem ter tentado fugir) e Jenny no final. Após o procedimento, se seguem cenas de Heitir tratando as pobres vítimas de seu experimento como seu animal de estimação, ensinando-as como se locomover, como comer e, a pior parte, como defecar na boca uns dos outros.

Esse primeiro filme é o menos gráfico dos três, com pouco gore e um enfoque menos destacado no grotesco das cenas. A maior parte das nojeiras que fizeram esse filme famoso são apresentadas no segundo ato e ocupam pouco tempo de tela.

As atuações são totalmente medianas e pouco destacadas. A única atuação mais aprimorada, se podemos dizer assim, é a de Dieter Laser, que imprime uma imagem realmente vivida de cientista louco ao Dr. Heitir, com seu olhar vidrado, expressões perturbadas e caminhar rígido.

A obra conquistou um público ávido por experiências intensas e se tornou conhecida através do boca a boca e dos fóruns da internet. Nessa época, franquias como “Jogos Mortais” e “O Albergue” estavam em seu auge e o torture porn tinha se tornado o novo Eldorado para o cinema de horror.

É claro que o filme é totalmente vazio de sentido e não possui nenhuma mensagem, critica ou interpretação mais profunda. Porém, Tom Six percebeu que poderia gerar curiosidade entre o público com a premissa absurda e a promessa de cenas chocantes.

Entretanto, esse filme não é chocante nem grotesco. É apenas decepcionante e vazio.

A Centopeia Humana 2 (2011)

Com o “sucesso” do primeiro filme, a sequência foi lançada dois anos depois. Desta vez, Tom Six resolveu recompensar seu público com aquilo que eles buscavam: cenas nojentas e grotescas, com gore gráfico e torture porn.

Logo de início, descobrimos que no universo dessa nova obra o filme anterior existe e é conhecido. Um dos “apreciadores” da obra original é Martin Lomax (Laurence R. Harvey), um tipo patético e com óbvios desequilíbrios mentais, que vive com sua mãe abusiva e suporta uma vida miserável. Uma das poucas coisas que alivia sua existência é assistir “A Centopeia Humana” (imagine-se o quão horrível deve ser uma vida para que uma pessoa tenha que se sentir contente vendo um lixo tão espantoso como esse), filme pelo qual é obcecado.

Aqui não há sutilezas ou subterfúgios. Tom Six optou pelo caminho fácil e recheou sua sequência com o suprassumo do que havia de mais repulsivo. Em uma cena da pior qualidade, Martin se masturba usando uma lixa, enquanto assiste “A Centopeia Humana”. Tudo é sujo, malcuidado e expressa um clima de depressão e degradação, clima acentuado pela filmografia toda em preto e branco. Mas, não se engane, pois nada disso serve para nenhum objetivo além de chocar o público. Mesmo a metalinguagem que abre o filme não tem nenhum propósito maior. 

Mergulhado em sua obsessão, Martin resolve pôr em prática as ideias do Dr. Heitir e criar sua própria experiência, unindo doze infelizes em uma criatura humano/centopeia. Mais uma vez, o roteiro vai pelo caminho fácil: não há nenhuma explicação de como Martin capturou suas vítimas ou como conseguiu ocultar doze sequestros das autoridades, alimentando-os e mantendo-os vivos em um galpão. O roteiro existe apenas com o um fio condutor entre as cenas grotescas e até mesmo os poucos diálogos são todos autoexplicativos, simples e diretos. Tudo para que o filme consiga entregar ao seu público o que foi prometido: asco, nojeira, violência e, é claro, torture porn. E o público, aparentemente, ficou satisfeito com o que recebeu (demonstrando o seu nível de bom gosto), pois o incansável Tom Six prometeu uma terceira obra aos seus “fãs”, para ser entregue o mais breve possível.


                             

A Centopeia Humana 3 (2015)

Apesar das promessas de Tom Six, o terceiro filme demoraria alguns anos a mais para ser produzido, devido a problemas de financiamento (afinal, quem gostaria de investir em algo assim?) e distribuição (quem gostaria de distribuir algo assim?).

Nesse filme, temos o retorno de Dieter Laser, agora interpretando a Bill Boss, diretor de uma penitenciária norte-americana de segurança máxima que está enfrentando problemas de disciplina com seus prisioneiros. Também está de volta Laurence R. Harvey como Dwight Butler, o assistente do diretor Boss.

A metalinguagem também está de volta, pois ambos os filmes anteriores existem no universo desta obra e Butler, que parece ser um fã de ambas, sugere diversas vezes a Boss que use aos prisioneiros da penitenciária em uma experiência de centopeia humana, como forma de manter a disciplina.

Se no primeiro filme a atuação de Laser era a melhor de todas como um cientista insano e misantropo, neste terceiro filme o ator parece ter optado por elevar essa atuação à enésima potência, atuando de maneira mais exagerada possível, gritando, fazendo caretas e agindo sempre da maneira mais estridente. O personagem Bill Boss é racista, misógino, sociopata e sádico, tratando todos ao seu redor como lixo, principalmente Butler e sua secretaria Daisy (interpretada pela ex-atriz pornográfica Bree Olson), a qual obriga a fazer sexo com ele e molesta sexualmente sempre que pode.

          Embora Boss consiga manter seus auxiliares sempre humilhados e assustados, o mesmo não acontece com os prisioneiros, os quais não respeitam sua autoridade. Para tentar manter a disciplina, Boss apela para medidas extremas, torturando os prisioneiros, chegando a usar água fervida para afogar um deles. Outro prisioneiro é castrado e Boss come seus testículos. Porém, nada disso parece funcionar e os prisioneiros continuam desafiando sua autoridade.

        Para piorar a situação, o Governador Hughes (Eric Roberts, mostrando que sua carreira foi para o brejo definitivamente) aparece na prisão para exigir que Boss de um jeito para controlar os prisioneiros ou será demitido.

Então, Butler sugere novamente a Boss que use o método da “centopeia humana” do Dr. Heitir para disciplinar os detentos. Em outra metalinguagem, o próprio Tom Six aparece em cena interpretando a si mesmo, para explicar a Boss o princípio “cientifico” em que se baseou sua obra. Revoltado, Boss expulsa o diretor aos gritos e insulta seus filmes.

Como a disciplina na penitenciaria não melhora, Boss finalmente aceita a ideia de Butler e cria uma enorme “centopeia humana” com os detentos, criando a imagem que seria usada para promocionar o filme.

Após mostrar, em seus primeiros filmes, que não tem o menor talento para o horror e o drama, Tom Six resolveu mostrar nesse terceiro filme sua falta de talento para a comédia e o humor negro. Esse filme parece uma mostra de cenas absurdas, com um tom muito mal executado, onde a “centopeia humana” aparece apenas por poucos minutos, mostrando claramente que o diretor não sabia mais o quer fazer com ela. O roteiro é muito cheio de furos e as atuações são todas tão exageradas, com diálogos tão espalhafatosos, que dão as cenas um ar de improviso.

É risível pensar que um diretor de uma instituição penitenciaria em pleno século XXI possa torturar, castrar e até fazer experiências com seus prisioneiros sem sofrer nenhuma consequência. Para piorar, o próprio Governador Hughes concorda com a ideia da “centopeia humana” sem precisar pensar muito, como se estivesse diante da solução perfeita para seus problemas.

Ao fim e ao cabo, a trilogia “A Centopeia Humana” é uma junção de três filmes vazios, que parte de uma premissa que conseguiu despertar a curiosidade de um publico desejoso de emoções intensas, mas que nunca conseguiu apresentar nada realmente importante ou relevante, migrando do horror a comédia de humor negro, fracassando em conseguir ser mais do que uma mera curiosidade grotesca.


Incansável, Tom Six promete a algum tempo preparar um quarto filme, mas até o momento não conseguiu arrecadar o orçamento necessário. Talvez ele consiga um dia realizar sua quarta obra vazia com sua “centopeia humana", mas com certeza eu não irei assisti-la.

Já perdi muito tempo de vida com as bobagens de Tom Six. Não vale a pena desperdiçar mais com outro de seus filmes intragáveis.

 

 

 

 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Spawn

Filmes Porcaria #1:

 Spawn- O Soldado do Inferno (1997)

O ano era 1992. A Marvel Comics dominava com folga o mercado de quadrinhos. Suas revistas vendiam milhões de cópias e os leitores faziam fila na porta das comic shops para comprar as novas edições

Muito desse sucesso de vendas da Marvel era mérito de um pequeno grupo de artistas, formado por sete jovens desenhistas: Rob Liefeld, Whilce Portacio, Todd McFarlane, Erik Larsen, Jim Valentino, Marc Silvestri e Jim Lee. Com seus estilos de ilustração dinâmicos e inovadores, capazes de encantar os jovens e conquistar a fidelidade dos leitores, esses sete artistas se transformaram em verdadeiras celebridades dos quadrinhos, alcançando uma fama nunca antes vista entre os profissionais da área.

Os sete grandes artistas da Marvel no início dos anos 90: 
Rob Liefeld, Whilce Portacio, Todd McFarlane, Erik Larsen, Jim Valentino, Marc Silvestri e Jim Lee

Entretanto, apesar de serem amados pelos leitores e serem tratados como celebridades pela comunidade dos quadrinhos, esses artistas se sentiam muito desvalorizados pela própria Marvel, pois não recebiam percentuais sobre as vendas das revistas e não tinham direitos sobre as artes originais que realizavam, artes estas que terminavam sendo leiloadas por valores expressivos, valores estes que eram revertidos unicamente para a Marvel, sem nenhum repasse para os artistas. A situação escalou até um ponto em que os sete resolveram abandonar a empresa e fundar sua própria editora.

E assim foi criada a Image Comics, uma editora independente de histórias em quadrinhos (hqs) que surgiu com a proposta de oferecer aos artistas e demais criadores o controle total sobre suas criações e uma porcentagem muito maior sobre os lucros que estas criações pudessem vir a oferecer.

A primeira criação lançada pela Image, em abril de 1992, foi a super equipe chamada Youngblood, criada por Rob Liefeld, que havia trabalhado para a Marvel em títulos como Os Novos Mutantes e X-Factor. Pouco depois, em maio de 1992 seria lançado Spawn, um anti-herói com poderes demoníacos, criado por Todd McFarlane, que havia desenhado capas e hqs do Homem-Aranha. A esses primeiros títulos, logo se seguiriam The Savage Dragon, criado por Erik Larsen, WildCats, de Jim Lee, ShadowHank de Jim Valentino e Cyber Force de Marc Silvestri.


As vendas das novas revistas foram impressionantes. Tanto Youngblodd quanto Spawn bateram recordes de vendas para hqs independentes. O lançamento dos novos personagens e as sessões de autógrafos eram verdadeiros eventos, similares a apresentações de astros do rock, com filas quilométricas de leitores esperando seus autógrafos, a presença de artistas e rappers famosos e até mesmo a polícia tendo que fazer o controle da multidão para evitar tumultos. Por outro lado, a cobertura da mídia em relação a toda essa situação foi bastante ampla, fazendo com que o interesse do público e, consequentemente, as vendas das revistas, crescessem ainda mais.

Com o enorme sucesso das hqs da Image, não demorou muito para que os estúdios começassem a fazer propostas para tentar conseguir os direitos dos personagens da editora, com o objetivo de poder realizar adaptações desses personagens para obras cinematográficas.

Todd McFarlane aceitaria uma proposta da New Line Cinema e cederia os direitos de Spawn para uma adaptação cinematográfica, desde que ele pudesse ter parte do controle criativo sobre a obra e uma porcentagem maior sobre os direitos de merchandising do filme.

Todd McFarlane

Spawn começa relatando que existe uma guerra entre o Céu e o Inferno. O líder do Inferno, um demônio chamado Malebolgia, está reunindo um exército de guerreiros falecidos e precisa apenas de um general para liderá-los em um ataque contra o Céu. Para agilizar seus planos, Malebolgia envia Violator (John Leguizamo), um ser demoníaco com a aparência de um palhaço obeso e repulsivo, para trabalhar para ele na Terra.


Enquanto isso, o tenente-coronel Al Simmons (Michael Jai White) está vivendo sua vida como agente especial da CIA, cumprindo missões de eliminação de alvos perigosos e eliminando grupos terroristas. Ao mesmo tempo, Simmons está casado com Wanda (Theresa Randle) e sente cada vez mais remorsos pelas missões que tem que realizar.

Disposto a deixar sua vida de agente para trás, Simmons confronta seu chefe, Jason Wynn (Martin Sheen) e pede para ser retirado do serviço ativo. Wynn, porém, lhe oferece uma última missão: destruir uma fábrica de armas químicas na Coréia do Norte. Embora contrariado, Simmons aceita a missão final. Entretanto, ele termina sendo vítima de uma cilada armada por Wynn e Jessica Priest (Melinda Clarke), uma assassina a serviço de Wynn, e termina sendo queimado vivo um pouco antes da fábrica ser explodida.

A alma de Simmons viaja para o Inferno e lá ele se encontra com Malebolgia, que oferece um acordo: caso Simmons aceite liderar o exército do Inferno na guerra contra o Céu, Malebolgia vai permitir que ele volte para a Terra e possa reencontrar sua esposa. Desesperado para rever seu amor, Simmons aceita o acordo.

Simmons retorna para a Terra e é recebido por Violator, que explica ao infeliz protagonista que se passaram cinco anos da sua morte e que sua esposa Wanda se casou com seu melhor amigo, Terry Fitzgerald (D.B. Sweeney) e que o casal tem uma filha chamada Cyan (Sydni Beaudoin). Tomado pelo ódio e disposto a se vingar de todos aqueles que ele vê como culpados por sua desgraça, Spawn começa a ser treinado por Violator para ser o servo perfeito para o exército infernal de Malebolgia. O que Spawn não sabe é que está sendo manipulado, com o objetivo de assassinar Wynn e liberar uma arma biológica chamada Heat 16, que pode exterminar toda a humanidade.

Ao mesmo tempo, Spawn conhece um menino sem-teto chamado Zack (Miko Hughes) e um velho morador de rua chamado Cogliostro (Nicol Williamson), que também já serviu o Inferno, mas que conseguiu se libertar. Esses dois personagens irão ajudar Spawn a redescobrir sua humanidade e se livrar de seu desejo de vingança.

Muito bem. Essa é a sinopse do filme. Mas qual o veredicto final? Vale ou não vale a pena? Pois bem. O veredicto é muito simples: Spawn é horrível, uma das piores adaptações cinematográficas de quadrinhos já feitas. O filme foi um fracasso de público e crítica e conseguiu enterrar todas as possibilidades de que outros personagens da Image fossem adaptados para o cinema.

É realmente surpreendente imaginar que McFarlane deu seu aval para que esta porcaria fosse lançada, ainda mais quando se tem em mente que Spawn sempre foi sua menina dos olhos.

McFarlane e Jai White no set de Spawn

O problema com Spawn começa com a escolha da equipe responsável pela obra. A direção foi entregue a Mark A. Z. Dippé, que não tinha experiência relevante em direção (ele havia dirigido apenas um filme irrelevante em 1995) e era apenas um assistente de efeitos especiais. O roteiro foi entregue a Alan B. McElroy, que tinha pouquíssima experiência. O roteiro terminou sendo revisado e adaptado pelo próprio McFarlane e pelo diretor Dippé, se transformando na confusão abobalhada e quase sonífera que vemos na tela.

Mark A. Z. Dippé
Alan B. McElroy

Os efeitos especiais, que seriam a parte mais importante do filme, foram entregues a uma empresa recentemente criada por Mark A.Z. Dippé, Steve "Spaz" Williams e Clint Goldman, que tinham deixado a Industrial Light & Magic (ILM) e fundado sua própria empresa, chamada Pull Down Your Pants Pictures (em uma tradução livre, algo como Abaixe suas Calças Pictures).

Pode-se notar um padrão aqui: um filme que pretendia introduzir um personagem de quadrinhos para o grande público e que deveria se basear em lutas, poderes e grandes cenas de ação, mas que termina sendo entregue a um grupo de profissionais inexperientes e pouco qualificados. Para piorar, o elenco era composto, em sua maioria, de atores pouco talentosos e desconhecidos do público. Com a exceção de Michael Jai White, e, principalmente, John Leguizamo, que realmente tentam dar a seus personagens alguma personalidade, as demais atuações são simplesmente atrozes.

Toda a produção é muito mambembe. Os diálogos são simplórios e não têm nenhum impacto, as cenas vão se sucedendo de forma automática e a montagem é confusa, ao ponto de o espectador não conseguir entender em que lugar está ocorrendo a cena e como os personagens se locomovem de uma parte para a outra. A qualidade da montagem é tão amadora que, em uma das primeiras cenas do filme, aparece um letreiro informando que estamos no aeroporto de Hong Kong, mas a câmera está focando diretamente a torre de controle de voo do aeroporto de Los Angeles. Não era possível filmar o aeroporto de outro ângulo? Precisava mostrar um ponto de referência facilmente reconhecível pelos espectadores?

Entretanto, o que coroaria o fracasso de Spawn seriam seus efeitos especiais, que variam de aceitável (uns 2% deles) a horrível (uns 30%) e intragável (os 68% restantes). As cenas de luta são tão mal feitas que se tornam incompreensíveis. Outras cenas são simplesmente bobas, como o cinto de Spawn se estendendo e mordendo a perna de Priest, para impedi-la de dar um chute na virilha do herói. Basta lembrar que os principais vilões do filme, Malebolgia e Violator, são apresentados com suas formas demoníacas feitas com um efeito de computação gráfica que mesmo para os anos 90 já eram ridículos. Essa computação gráfica horrível consegue remover todo o impacto que esses vilões deveriam ter, tornando os mesmos meras criaturas risíveis e sem importância para o público.

Outro erro fatal foi terem transformado um herói sombrio, que surgiu em quadrinhos famosos por serem mais intensos e violentos, em um personagem PG13, com o objetivo de tentar atrair um público maior para os cinemas. Essa manobra foi o prego final no caixão do filme, pois desagradou os fãs do personagem de forma muito mais direta, pois estes se sentiram pessoalmente ofendidos.

O custo final de Spawn foi de cerca de 45 milhões de dólares. A bilheteria final foi de 88 milhões, o que se revela um fracasso, pois apesar de o filme ter se pagado, não conseguiu atingir a meta padrão de render o triplo de seu orçamento inicial para ser considerado um sucesso. Da mesma forma, o merchandising foi um fracasso, pois se esperava uma grande arrecadação com a venda de produtos licenciados, algo que não aconteceu.

Ao contrário de outros filmes que eu já resenhei aqui antes, Spawn não conseguiu se redimir aos olhos do público com o passar dos anos. Apesar de que o personagem seguir firme e forte até hoje nos quadrinhos, o filme foi esquecido pelos fãs do personagem e caiu no temido limbo dos filmes medíocres, não conseguindo nem mesmo se tornar um “tão ruim que fica bom”.

Ao fim e ao cabo, Spawn é péssimo, chato e insuportável. É o primeiro Filme Porcaria resenhado aqui no blog e, realmente, não vale a pena assistir.

 

XB: Galáxia Proibida

  XB: Galáxia Proibida (1982) Começavam os anos 1980 e filmes de ficção cientifica como Alien e a trilogia original de Star Wars arrecad...