sexta-feira, 8 de abril de 2022

O Massacre da Serra Elétrica 2

 O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986)

Em 1974, o mundo foi apresentado a “O Massacre da Serra Elétrica”, uma verdadeira obra-prima do cinema de terror, considerado por muitos como o melhor filme do gênero slasher.

Dirigido por Tobe Hooper e roteirizado por Kim Henkel, “O Massacre da Serra Elétrica” foi um sucesso de público, critica e bilheteria. Muito desse sucesso se deveu ao incrível trabalho de direção de Hooper e ao fabuloso esforço de produção, tudo feito com um orçamento ínfimo de 300 mil dólares. Porém, o baixo orçamento foi compensado pela competência da equipe e o talento dos envolvidos. E assim, a imagem de Leatherface (magistralmente interpretado por Gunnar Hansen) como um assassino implacável e a família Sawyer como o clã de canibais sádicos ficaria eternamente marcada na cultura pop.

Tobe Hooper

Surpreendente, mesmo com todo o sucesso que conquistou e a enorme admiração que construiu ao seu redor, a obra de Tobe Hooper somente foi ter uma sequência doze anos depois. Mas, o mais surpreendente foi a virada total que Hooper daria para seu trabalho para produzir esta sequência, trocando o terror brutal e cru do primeiro filme (o qual havia levado a obra a ser banida em vários países, inclusive no Brasil) pelo humor negro e a sátira mordaz.

Em 1984, Hooper firmou um contrato com a mitológica produtora Cannon Filmes, de propriedade dos primos israelenses Menahem Golam e Yoram Globus, para a realização de três filmes, sendo que o último deles seria a sequência do filme de 1974. Nessa época Hooper já era muito mais reconhecido como diretor, não apenas devido ao sucesso de seu primeiro filme, como também graças ao seu trabalho junto com Steven Spielberg em “Poltergeist” (1982). Devido a isso, os primos Golam e Globus disponibilizaram mais de 4 milhões de dólares para que Hooper produzisse sua sequência.

Inicialmente, Hooper pretendia contar com Kim Henkel novamente no roteiro, que continuaria a história de Sally Hardest, a sobrevivente do primeiro filme (interpretada por Marylin Burns, que seria homenageada pelos fãs com o título de “Rainha do Grito”). Entretanto, como não foi possível contar com Henkel, Hooper contratou o texano L. M. Kit Carson (conhecido na época por ter feito o roteiro de “Paris, Texas” de 1984, um drama bastante elogiado, dirigido por Wim Wenders) para escrever o roteiro, o qual acabou sendo modificado várias vezes até dar origem a trama que seria retratada nas telas.

L. M. Kit Carson

O Massacre da Serra Elétrica 2 começa com os jovens Buzz (Barry Kinyon) e Rick (Chris Douridas), que estão viajando em uma rodovia isolada no Texas. Os dois rapazes estão indo para o estádio Cotton Bowl, na capital texana Dallas e aproveitam sua viagem para beber e atirar nas placas de trânsito na beira da estrada. Os dois garotos usam o telefone do carro e ligam para a K-OKLA, uma rádio local, onde são atendidos pela DJ Vanita “Stretch” Brock (Caroline Williams). 


Os jovens são uns babacas e a pobre DJ Stretch não consegue fazer com que desliguem, sendo obrigada a mantê-los no ar por um tempo. E é então que o carro de Buzz e Rick passa por uma picape e são atacados por ninguém mais ninguém menos que Leatherface (Bill Johnson), que usa sua icônica motosserra para cortar o teto do carro e assassinar os rapazes. Todo o ataque, incluindo os gritos de morte dos jovens, é transmitido pela rádio e termina gravado por Stretch. 

No dia seguinte, a polícia está investigando o local do crime. E é nessa cena que surge Boude “Lefty” Enright (Dennis Hopper), um tenente da polícia que está investigando a vários anos os crimes da família Sawyer. Lefty tem um motivo pessoal para querer encontrar a família de canibais: ele é tio de Franklin e Sally, os irmãos que aparecem no primeiro filme. Entretanto, ninguém parece levar a sério as suspeitas de Lefty e a maioria dos outros policiais o vê como um louco obcecado (algo que parece ser verdade, conforme veremos no decorrer da trama).

Mesmo sem apoio oficial, Lefty acredita que está no caminho certo e pretende continuar suas investigações. Ele é então contatado por Stretch, que quer mostrar para ele a fita dos últimos momentos de Buzz e Rick. Inicialmente o tente se recusa a ouvir a DJ (algo totalmente inexplicável, afinal ele está a treze anos buscando por uma pista e quando essa pista finalmente aparece, ele se recusa a ouvi-la), mas depois é convencido e pede que a moça toque a fita na rádio, para que o público ouça e entenda o perigo que a família Sawyer representa. Stretch concorda, mas o que ela não sabe é que o plano de Lefty é usa-la como isca para atrair os Sawyer.

Enquanto isso, somos apresentados a Drayton Sawyer (Jim Siedow), o irmão de Leatherface, conhecido como o Cozinheiro no primeiro filme, o qual está participando de um concurso de melhor chili com carne dos estados do Texas e Oklahoma. Aqui cabe um pequeno adendo: para quem não conhece, Chili é uma palavra em espanhol que se refere a um molho feito à base de pimenta. Entretanto, Chili também é o nome de um prato tradicional da culinária mexicana, feito com pimenta, feijão e carne moída, e é a esse tipo de chili que o filme se refere. No concurso também estão presentes Stretch e seu colega LG Mc Peters (Lou Perryman), que estão transmitindo o concurso para sua rádio. Ao ser anunciado como o vencedor do concurso, Drayton declara que o segredo de seu sucesso é que ele tem “um bom olho para carne de qualidade. É de família.”. Quem conhece a família Sawyer já deve imaginar a que tipo de carne o Cozinheiro está se referindo.

Na cena seguinte, vemos Lefty chegar a uma loja de motosserras chamada Cut-Rite, onde o tenente se arma para combater os Sawyer. Lefty compra duas motosserras pequenas para usar com apenas uma mão e uma motosserra grande de duas mãos. Animado pelo dono da loja, ele resolve testar as motosserras em um tronco especialmente colocado para isso na frente da loja, e nos brinda com uma cena antológica, onde fica claro que o tenente não regula bem, da cabeça e está realmente obcecado com enfrentar a família Sawyer.


Durante a viagem de volta após vencer o concurso, Drayton recebe uma ligação e é informado que uma rádio está transmitindo uma fita que incrimina sua família no assassinato dos jovens do início do filme. Revoltado com o amadorismo de seus familiares, Drayton ordena que resolvam o problema imediatamente.

Naquela noite, Stretch está sozinha na rádio quando é abordada pelo personagem mais memorável deste filme: Chop Top (Bill Moseley), outro irmão de Leatherface, que parece ter servido no Vietnã, de onde voltou com uma placa de metal na cabeça. Chop Top atua como um maluco completo, falando frases desconexas e atuando de maneira errática. Outra característica marcante do personagem é o fato de que ele usa um gancho de arame para ficar coçando a placa de metal em sua cabeça, ao mesmo tempo em que tira pequenos pedaços da pele ao redor da placa e os come. A cena em que Stretch o descobre dentro da rádio é extremamente incômoda, com a DJ tentando fazer de tudo para se livrar do inconveniente visitante, a medida em que fica cada vez mais desesperada com a situação.

Porém, Chop Top não veio sozinho a rádio. Junto com ele está Leatherface, que ataca Stretch. A garota consegue fugir e se refugia em uma sala com uma parede de aço. Enquanto isso, LG chega a rádio e confronta Chop Top, mas termina nocauteado por Leatherface. 

Stretch se desespera ao ver Leatherface finalmente invadir seu esconderijo derrubando uma parede. Inicialmente, parece que o assassino mascarado vai matar a garota, mas ela consegue convencê-lo a deixá-la viva, apelando para os nascentes instintos sexuais dele. E nesse momento que somos brindados com a cena mais constrangedora desse filme, quando Leatherface esfrega sua motosserra na virilha de Stretch e parece estar tendo uma espécie de prazer sexual com isso.

Chop Top e Leatherface levam o corpo de LG embora e Stretch resolve segui-los. Ao mesmo tempo, Lefty também segue a dupla de assassinos. Todos acabam chegando a um parque de diversões abandonado chamado Texas Battle Land. Ali, Stretch acaba capturada pelos Sawyer e é levada para participar de um jantar com a família (em uma cópia descarada do jantar do primeiro filme, inclusive com uma cena do vovô Sawyer golpeando a protagonista na cabeça com um martelo). 

Enquanto isso, Lefty descobre o esqueleto mutilado de Frank em um dos túneis do local. Tomado de ira, o tenente resolve derrubar o local e começa a serrar as vigas de sustentação, enquanto grita insultos e desafios aos seus inimigos.


O Massacre da Serra Elétrica 2 não foi um fracasso de bilheteria (o filme rendeu 8 milhões de dólares nos Estados Unidos), mas diante do sucesso estrondoso do primeiro filme, foi uma queda bastante expressiva no faturamento. Também houve muitas criticas negativas e uma boa parte do público, principalmente os fãs da obra original, não gostaram do tom do filme. A maioria do público esperava um filme de terror na mesma linha do primeiro, e não aceitaram muito bem o humor negro e a sátira presentes nesta sequência. O próprio pôster do filme foi motivo de críticas, pois é uma cópia óbvia do pôster de “O Clube dos Cinco” (1985).

É claro que as críticas do público têm sentido e são bastante validas, principalmente ao se comparar o filme de 1986 com a obra original de 1974. Onde o primeiro Massacre da Serra Elétrica era sombrio, sujo e descolorido, este segundo filme é claro, limpo e cheio de cores. Enquanto o primeiro apresentava uma imagem crua e repulsiva da humanidade e fazia críticas ao consumo de carne, a mecanização da indústria e ao isolamento humano e tudo que isso implicava, este deixou as críticas sociais de lado e mostrou uma humanidade mais bizarra e excêntrica, pendendo sempre mais para o humor e menos para o terror. As diferenças claras entre as duas obras não impediram que O Massacre da Serra Elétrica 2 tivesse o mesmo destino da obra original e fosse banido em alguns países, como Alemanha, Austrália e Singapura.

Entretanto, com o passar do tempo e, principalmente, diante das continuações cada vez piores e mais absurdas, muitos fãs começaram a ver esse filme com outros olhos e ele ganhou sua própria legião de fãs. Obviamente, este é um filme trash, com um roteiro destrambelhado, situações absurdas e personagens caricatos. Mas, comparado ao que ainda viria a ser mostrado futuramente na saga (como o pavoroso “Massacre da Serra Elétrica- A Nova Geração” de 1995), esta obra tem seus méritos, como o humor satírico e a presença de Chop Top, que marcou boa parte do público com suas maluquices. 

O personagem foi tão marcante que conseguiu gerar um filme próprio: “All American Massacre” (2000) foi dirigido por William Hooper, filho de Tobe Hooper, e traria Bill Moseley de volta ao papel do maluco com a placa de metal na cabeça. Infelizmente, o filme acabou nunca sendo lançado, devido a problemas com os direitos autorais. 

Bill Moseley como Chop Top em um pôster para "All American Massacre"

Outro ponto marcante foram os efeitos especiais realizados por Tom Savini, um mestre dos efeitos visuais, que trabalhou em filmes de terror clássicos como “Sexta-Feira 13” (1980) e “Despertar dos Mortos” (1978).

Tom Savini e Caroline Williams confraternizando durante as filmagens de O Massacre da Serra Elétrica 2

Ao fim e ao cabo, O Massacre da Serra Elétrica 2 pode não ser um filme perfeito ou a sequência que o filme de 1974 merecia, mas com certeza é um filme trash muito divertido e que vale a pena ser apreciado pelos fãs do gênero.

 

 

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Ninja Americano

 Ninja Americano (1985)

Durante a década de 1980, o mundo viu surgir uma nova mania na cultura pop: a Ninjamania. A febre mundial por estes misteriosos assassinos oriundos do antigo Japão feudal marcou os anos 80 e conseguiu inclusive estender parte de sua influência até o principio dos anos 90.

Todo tipo de produto de entretenimento contendo ninjas foi produzido em massa durante essa época, buscando atender ao público ávido por mais aventuras com guerreiros vestidos com quimonos negros. Desde histórias em quadrinhos (as incríveis Tartarugas Ninja surgem em 1984 nas páginas de “Teenage Mutant Ninja Turtles”), passando por videogames (como o clássico “Ninja Gaiden” produzido em 1988 pela Tecmo, ou o icônico “Shinobi”, produzido pela SEGA em 1987), desenhos animados (em 1987 as Tartarugas Ninjas conseguiram seu próprio desenho animado, o qual se tornaria um dos maiores ícones das décadas de 80 e 90), além das conhecidas séries de televisão japonesa do gênero Tokusatsu (como “Jiraiya- O Incrível Ninja”, que estreou em 1988) e, é claro, filmes. Muitos filmes.

As Tartarugas Ninja em quadrinhos...
... e em desenho animado.
Ninja Gaiden da Tecmo
Jiraiya- O Incrível Ninja

Pois foi logo no início dessa Ninjamania que a lendária Cannon Group (a produtora de filmes de propriedade dos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus) resolveu produzir uma trilogia de filmes com ninjas, procurando explorar esse importante filão que estava nascendo. Assim surgiram “Ninja, A Máquina Assassina” (1981), “A Vingança do Ninja” (1983) e “Ninja III- A Dominação” (1984). Porém, embora o primeiro filme da trilogia tenha tido um relativo sucesso e seja inclusive visto por muitos como o filme que conseguiu tornar os ninjas populares no Ocidente, o mesmo não pode ser dito das suas sequências, principalmente a última, que foi um verdadeiro fracasso de público e crítica.

Se você via esse logotipo nos anos 1980, podia estar seguro de que ia ver um filme de série B, mas muito divertido
Menahem Golan e Yoram Globus, também conhecidos como Go-Go Boys, em um anúncio promocional...
... e em uma reportagem nas páginas da Variety em 1986


Embora os defeitos de “Ninja III- A Dominação” fossem óbvios, com uma trama muito estranha que tentava juntar em uma mesma obra as artes marciais e os poderes sobrenaturais, contando a história de uma moça que é possuída pelo espírito de um ninja morto pela polícia após matar várias pessoas em um campo de golfe. O filme era uma espécie de mistura amalucada entre “Ninja, A Máquina Assassina” e “O Exorcista” (1973), algo que claramente confundiu e não agradou o público. Mesmo assim, os primos Golan e Globus preferiram acreditar que a culpa pelo fracasso tinha sido unicamente da protagonista Christie (interpretada por Lucinda Dickey), alegando que os espectadores não estavam preparados para ver uma ninja mulher em cena. É claro que a péssima atuação de Lucinda Dickey não ajudou muito a convencer o público, mas ela não foi a única responsável pelo fracasso da obra, até por que as atuações no filme são todas muito ruins.

Lucinda Dickey em "Ninja III- A Dominação"

Entretanto, Golan e Globus estavam convencidos que precisavam de um protagonista homem para que seu próximo filme de ninjas pudesse triunfar. Inicialmente foi cogitado contratar Chuck Norris para assumir a tarefa, já que o ator estava em alta devido ao sucesso de “Braddock- O Super Comando” (1984). Mas o baixíssimo orçamento que a Cannon pretendia investir no filme acabou afastando Norris, que estava interessado em estrelar obras mais bem produzidas. Também existem alguns boatos de que o ator não queria ter de cobrir seu rosto com a máscara de ninja. Seja qual for o motivo, Norris desistiu do projeto, mesmo que alguns anúncios promocionais do filme com o seu rosto estampado já tivessem sido produzidos.

Chuck Norris em um anúncio de American Ninja

Foi então que surgiu, como se tivesse brotado do chão, o novato Michael Dudikoff. Como o jovem Dudikoff preenchia os requisitos de protagonista que Golan e Globus tinham imposto (que fosse homem, jovem e se parecesse com James Dean), o diretor Sam Firstenberg (que já havia sido responsável por dirigir “A Vingança do Ninja” e “Ninja III- A Dominação”) resolveu colocá-lo no papel principal, mesmo que o jovem ator não soubesse absolutamente nada de artes marciais.

Sam Firstenberg e Michael Dudikoff durantes as filmagens

E foi assim que surgiu Ninja Americano, também conhecido no Brasil como Guerreiro Americano, e que viria a se tornar um dos filmes de ação mais lembrados dos anos 1980.

O filme começa em uma base norte-americana nas Filipinas, onde o recruta Joe T. Armstrong (Michael Dudikoff) não parece muito interessado em fazer amizade com os outros soldados da base. Ele ignora todas as tentativas dos outros recrutas de interagir com ele e parece mais interessado em brincar com seu canivete.

Pouco depois, Joe e outros soldados são designados para ajudar a proteger um comboio de armas e munições que será transferido da base. Junto ao comboio viaja também Patrícia Hickock (Judie Aronson), a filha do Coronel William T. Hickock (Guich Koock), o comandante da base. O comboio percorre poucos quilômetros até que são parados na estrada por alguns operários que estão trabalhando na estrada. Porém, tudo não passa de uma armadilha e uma tropa de homens armados cerca o comboio. Inicialmente, o Sargento Rinaldo (John LaMotta) orienta seus soldados a não resistir e entregar a carga para seus atacantes. Mas então os atacantes descobrem Patrícia em um dos veículos e começam a ameaçá-la.

Diante disso, Joe resolve reagir e começa a lutar contra os inimigos, no que é imitado pelos outros soldados. Começa uma luta encarniçada típica do cinema de ação dos anos 80, onde os soldados americanos lutam com as mãos limpas e os assaltantes, que estão fortemente armados, simplesmente preferem não usar suas armas e caem como moscas. A luta está indo muito bem para os soldados quando surgem em cena uma equipe de ninjas e começa a massacrar os americanos. Embora os soldados reajam da melhor forma possível e até mesmo consigam matar alguns ninjas (os quais não estão muito camuflados vestidos de negro em meio a uma floresta tropical), apenas Joe consegue realmente enfrentar os ninjas de igual para igual, demonstrando suas incríveis capacidades de luta. 

Talvez você não consiga enxergá-los devido as suas habilidades de sigilo, mas aqui estão os ninjas. Notem como eles conseguem se camuflar perfeitamente ao entorno tropical com seus quimonos negros.

Joe inclusive salva a vida de Patrícia e, ao perceber que os demais soldados estão todos mortos, foge com ela para o meio da selva, escapando de seus inimigos.

Os assaltantes capturam Patrícia, mas Joe vem ao seu resgate

Após a emboscada e a fuga, Joe volta para a base com Patrícia, mas é recebido de forma bem pouco acolhedora, tanto por seus colegas (que o veem como responsável pela morte de seus amigos) quanto pelos oficiais (que o veem como um insubordinado e causador de problemas). Para piorar as coisas, Joe também está na mira do líder dos ninjas, o Ninja Black Star (Tadashi Yamashita), e de seu chefe, o traficante de armas Victor Ortega (Don Stewart).

Os vilões são um capítulo a parte dentro do filme. Ortega é um traficante de armas que rouba os armamentos dos comboios militares norte-americanos e vende para ditaduras militares do mundo todo, para que estas possam “combater o comunismo” (afinal, é 1985 e a Guerra Fria está em seu auge). Já o Ninja Black Star (ou Ninja Estrela Negra, devido a uma marca em formato de estrela que ele tem no rosto) é o líder de um grupo de ninjas mercenários que presta seus serviços de proteção a Ortega e são treinados no pátio da mansão do próprio Ortega. Para conseguir roubar os carregamentos, Ortega conta com a ajuda do Sargento Rinaldo, que se ocupa de informar sobre os comboios e garantir que não haja resistência das tropas que escoltam estes comboios. E, é principalmente por isso que Joe é um empecilho tão grande aos projetos dos vilões, pois pode incitar os soldados a lutar contra os assaltantes, dificultando suas operações.

Enquanto os bandidos formulam seus planos, Joe começa uma amizade com o Cabo Curtis Jackson (Steve James), após os dois terem se enfrentado em uma luta no pátio da base. Jackson também é um lutador muito bem treinado e esse interesse mútuo pelas artes marciais ajuda a consolidar a amizade entre os dois. É através da amizade com Jackson que Joe começa a interagir mais com os outros soldados e é aceito por eles. 


Joe e Patrícia acabam tendo um romance...
... e até mesmo vão em um jantar juntos.

É também através dos diálogos entre Joe e Jackson que descobrimos que nosso herói perdeu a memórias algum tempo atrás e não se lembra de nada de sua infância nem de como conseguiu suas incríveis habilidades de luta. Posteriormente, descobriremos que Joe foi resgatado quando criança por um ex-soldado japonês veterano da Segunda Guerra Mundial (John Fujioka), que o criou e treinou nas artes do Bushido (literalmente “O Caminho do Guerreiro”, o antigo código de honra dos samurais japoneses).

Contudo, o Sargento Rinaldo elabora um plano para eliminar Joe e o envia para trabalhar em um depósito no porto, onde o nosso herói é atacado por vários ninjas e tem que colocar em prática todas as suas habilidades, resultando em algumas das melhores cenas de luta do filme.


Ninja Americano foi um sucesso nas bilheterias, conseguindo render mais de dez vezes seu custo de produção. Todo esse sucesso permitiu a realização de quatro sequências, das quais Michael Dudikoff participou de duas, “Ninja Americano 2” (1987) e “Ninja Americano 4” (1991), com “Ninja Americano 3” (1989) contando com David Bradley no papel principal. Infelizmente, a qualidade das obras foi decaindo ao longo das sequências, ao ponto de que o último filme nem sequer ser originalmente um filme do Ninja Americano e sim um filme completamente diferente estrelado por David Bradley ao qual a Cannon apenas colocou o nome de “Ninja Americano 5” (1993) para tentar ganhar alguns trocados, pois nessa época a produtora já estava à beira da falência.

Ninja Americano é uma daquelas típicas produções de ação abobadas da década de 80, onde o herói massacra tropas inteiras de inimigos sem sofrer um arranhão sequer e onde os vilões são malvados apenas por que sim, sem nenhum desenvolvimento maior dos personagens. A cena final, onde os dois bandos, o dos vilões e o dos soldados, se enfrentam é tão claramente oitentista que beira o nível do absurdo, com os soldados liderados por Jackson literalmente aniquilando dezenas de oponentes que parecem não perceber que também estão armados e em nenhum momento revidam aos disparos, morrendo calmamente em seus lugares.


Jackson lidera o ataque final contra os bandidos...
... e não economiza munição.
A batalha final entre Joe e o Ninja Black Star

O roteiro também é um ponto a ser destacado nesta obra, devido aos seus absurdos. O plano dos vilões não faz sentido nenhum. Afinal, se eles contam com a cumplicidade do Sargento Rinaldo e sabem que o exército americano não vai revidar aos seus ataques, por que precisam de um exército de mercenários tão grande? E como foi que Ortega conseguiu contratar um grupo de ninjas e qual a verdadeira função desses em seus planos? Por outro lado, por que os militares americanos continuam enviando seus comboios um atrás do outro, mesmo sabendo que eles vão ser roubados? Por que não aumentar a escolta dos comboios? Será que nenhum dos bandidos percebe que todos esses roubos não poderão ficar impunes por muito tempo e logo o governo americano vai abrir uma investigação para saber o que está acontecendo? As situações absurdas mostradas na tela e os furos do roteiro são vários, mas ao final apenas acrescentam alguns elementos a mais na atmosfera trash da obra.

Da mesma forma, as atuações são um verdadeiro espetáculo as avessas, principalmente as do nosso protagonista. Além de não saber lutar, Dudikoff nunca foi um grande ator e isso fica claro em Ninja Americano, onde o ator passa o filme todo com a mesma expressão vazia no rosto, parecendo incapaz de demonstrar qualquer tipo de emoção.

Entretanto, o fato de Dudikoff não saber lutar não foi um grande empecilho para a realização de Ninja Americano. O diretor Sam Firstenberg resolveu utilizar a mesma técnica que já havia sido usada em “Ninja, A Máquina Assassina”, ou seja, colocar o coreógrafo Mike Stone para realizar as cenas de ação e filmar estas cenas com cortes e efeitos sutis, de modo a esconder do público a verdadeira identidade de quem estava na tela. O resultado dessa técnica foi tão bom que é muito difícil que alguém consiga perceber à primeira vista que não é Dudikoff que está em cena chutando e golpeando os ninjas inimigos. Mike Stone já tinha feito esse tipo de substituição em cenas de ação ao realizar as lutas no lugar do ator Franco Nero, em “Ninja, A Máquina Assassina”. Franco Nero também não sabia lutar e seria mais recordado por suas atuações em filmes de faroeste italiano (os spaghetti western) e por ter interpretado o Django original em “Django” (1966).  

Franco Nero em "Django"

Ao fim e ao cabo, Ninja Americano foi um marco no cinema de ação trash dos anos 80 e é recordado até os dias de hoje como uma obra muito divertida.

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