sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Ninja Americano

 Ninja Americano (1985)

Durante a década de 1980, o mundo viu surgir uma nova mania na cultura pop: a Ninjamania. A febre mundial por estes misteriosos assassinos oriundos do antigo Japão feudal marcou os anos 80 e conseguiu inclusive estender parte de sua influência até o principio dos anos 90.

Todo tipo de produto de entretenimento contendo ninjas foi produzido em massa durante essa época, buscando atender ao público ávido por mais aventuras com guerreiros vestidos com quimonos negros. Desde histórias em quadrinhos (as incríveis Tartarugas Ninja surgem em 1984 nas páginas de “Teenage Mutant Ninja Turtles”), passando por videogames (como o clássico “Ninja Gaiden” produzido em 1988 pela Tecmo, ou o icônico “Shinobi”, produzido pela SEGA em 1987), desenhos animados (em 1987 as Tartarugas Ninjas conseguiram seu próprio desenho animado, o qual se tornaria um dos maiores ícones das décadas de 80 e 90), além das conhecidas séries de televisão japonesa do gênero Tokusatsu (como “Jiraiya- O Incrível Ninja”, que estreou em 1988) e, é claro, filmes. Muitos filmes.

As Tartarugas Ninja em quadrinhos...
... e em desenho animado.
Ninja Gaiden da Tecmo
Jiraiya- O Incrível Ninja

Pois foi logo no início dessa Ninjamania que a lendária Cannon Group (a produtora de filmes de propriedade dos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus) resolveu produzir uma trilogia de filmes com ninjas, procurando explorar esse importante filão que estava nascendo. Assim surgiram “Ninja, A Máquina Assassina” (1981), “A Vingança do Ninja” (1983) e “Ninja III- A Dominação” (1984). Porém, embora o primeiro filme da trilogia tenha tido um relativo sucesso e seja inclusive visto por muitos como o filme que conseguiu tornar os ninjas populares no Ocidente, o mesmo não pode ser dito das suas sequências, principalmente a última, que foi um verdadeiro fracasso de público e crítica.

Se você via esse logotipo nos anos 1980, podia estar seguro de que ia ver um filme de série B, mas muito divertido
Menahem Golan e Yoram Globus, também conhecidos como Go-Go Boys, em um anúncio promocional...
... e em uma reportagem nas páginas da Variety em 1986


Embora os defeitos de “Ninja III- A Dominação” fossem óbvios, com uma trama muito estranha que tentava juntar em uma mesma obra as artes marciais e os poderes sobrenaturais, contando a história de uma moça que é possuída pelo espírito de um ninja morto pela polícia após matar várias pessoas em um campo de golfe. O filme era uma espécie de mistura amalucada entre “Ninja, A Máquina Assassina” e “O Exorcista” (1973), algo que claramente confundiu e não agradou o público. Mesmo assim, os primos Golan e Globus preferiram acreditar que a culpa pelo fracasso tinha sido unicamente da protagonista Christie (interpretada por Lucinda Dickey), alegando que os espectadores não estavam preparados para ver uma ninja mulher em cena. É claro que a péssima atuação de Lucinda Dickey não ajudou muito a convencer o público, mas ela não foi a única responsável pelo fracasso da obra, até por que as atuações no filme são todas muito ruins.

Lucinda Dickey em "Ninja III- A Dominação"

Entretanto, Golan e Globus estavam convencidos que precisavam de um protagonista homem para que seu próximo filme de ninjas pudesse triunfar. Inicialmente foi cogitado contratar Chuck Norris para assumir a tarefa, já que o ator estava em alta devido ao sucesso de “Braddock- O Super Comando” (1984). Mas o baixíssimo orçamento que a Cannon pretendia investir no filme acabou afastando Norris, que estava interessado em estrelar obras mais bem produzidas. Também existem alguns boatos de que o ator não queria ter de cobrir seu rosto com a máscara de ninja. Seja qual for o motivo, Norris desistiu do projeto, mesmo que alguns anúncios promocionais do filme com o seu rosto estampado já tivessem sido produzidos.

Chuck Norris em um anúncio de American Ninja

Foi então que surgiu, como se tivesse brotado do chão, o novato Michael Dudikoff. Como o jovem Dudikoff preenchia os requisitos de protagonista que Golan e Globus tinham imposto (que fosse homem, jovem e se parecesse com James Dean), o diretor Sam Firstenberg (que já havia sido responsável por dirigir “A Vingança do Ninja” e “Ninja III- A Dominação”) resolveu colocá-lo no papel principal, mesmo que o jovem ator não soubesse absolutamente nada de artes marciais.

Sam Firstenberg e Michael Dudikoff durantes as filmagens

E foi assim que surgiu Ninja Americano, também conhecido no Brasil como Guerreiro Americano, e que viria a se tornar um dos filmes de ação mais lembrados dos anos 1980.

O filme começa em uma base norte-americana nas Filipinas, onde o recruta Joe T. Armstrong (Michael Dudikoff) não parece muito interessado em fazer amizade com os outros soldados da base. Ele ignora todas as tentativas dos outros recrutas de interagir com ele e parece mais interessado em brincar com seu canivete.

Pouco depois, Joe e outros soldados são designados para ajudar a proteger um comboio de armas e munições que será transferido da base. Junto ao comboio viaja também Patrícia Hickock (Judie Aronson), a filha do Coronel William T. Hickock (Guich Koock), o comandante da base. O comboio percorre poucos quilômetros até que são parados na estrada por alguns operários que estão trabalhando na estrada. Porém, tudo não passa de uma armadilha e uma tropa de homens armados cerca o comboio. Inicialmente, o Sargento Rinaldo (John LaMotta) orienta seus soldados a não resistir e entregar a carga para seus atacantes. Mas então os atacantes descobrem Patrícia em um dos veículos e começam a ameaçá-la.

Diante disso, Joe resolve reagir e começa a lutar contra os inimigos, no que é imitado pelos outros soldados. Começa uma luta encarniçada típica do cinema de ação dos anos 80, onde os soldados americanos lutam com as mãos limpas e os assaltantes, que estão fortemente armados, simplesmente preferem não usar suas armas e caem como moscas. A luta está indo muito bem para os soldados quando surgem em cena uma equipe de ninjas e começa a massacrar os americanos. Embora os soldados reajam da melhor forma possível e até mesmo consigam matar alguns ninjas (os quais não estão muito camuflados vestidos de negro em meio a uma floresta tropical), apenas Joe consegue realmente enfrentar os ninjas de igual para igual, demonstrando suas incríveis capacidades de luta. 

Talvez você não consiga enxergá-los devido as suas habilidades de sigilo, mas aqui estão os ninjas. Notem como eles conseguem se camuflar perfeitamente ao entorno tropical com seus quimonos negros.

Joe inclusive salva a vida de Patrícia e, ao perceber que os demais soldados estão todos mortos, foge com ela para o meio da selva, escapando de seus inimigos.

Os assaltantes capturam Patrícia, mas Joe vem ao seu resgate

Após a emboscada e a fuga, Joe volta para a base com Patrícia, mas é recebido de forma bem pouco acolhedora, tanto por seus colegas (que o veem como responsável pela morte de seus amigos) quanto pelos oficiais (que o veem como um insubordinado e causador de problemas). Para piorar as coisas, Joe também está na mira do líder dos ninjas, o Ninja Black Star (Tadashi Yamashita), e de seu chefe, o traficante de armas Victor Ortega (Don Stewart).

Os vilões são um capítulo a parte dentro do filme. Ortega é um traficante de armas que rouba os armamentos dos comboios militares norte-americanos e vende para ditaduras militares do mundo todo, para que estas possam “combater o comunismo” (afinal, é 1985 e a Guerra Fria está em seu auge). Já o Ninja Black Star (ou Ninja Estrela Negra, devido a uma marca em formato de estrela que ele tem no rosto) é o líder de um grupo de ninjas mercenários que presta seus serviços de proteção a Ortega e são treinados no pátio da mansão do próprio Ortega. Para conseguir roubar os carregamentos, Ortega conta com a ajuda do Sargento Rinaldo, que se ocupa de informar sobre os comboios e garantir que não haja resistência das tropas que escoltam estes comboios. E, é principalmente por isso que Joe é um empecilho tão grande aos projetos dos vilões, pois pode incitar os soldados a lutar contra os assaltantes, dificultando suas operações.

Enquanto os bandidos formulam seus planos, Joe começa uma amizade com o Cabo Curtis Jackson (Steve James), após os dois terem se enfrentado em uma luta no pátio da base. Jackson também é um lutador muito bem treinado e esse interesse mútuo pelas artes marciais ajuda a consolidar a amizade entre os dois. É através da amizade com Jackson que Joe começa a interagir mais com os outros soldados e é aceito por eles. 


Joe e Patrícia acabam tendo um romance...
... e até mesmo vão em um jantar juntos.

É também através dos diálogos entre Joe e Jackson que descobrimos que nosso herói perdeu a memórias algum tempo atrás e não se lembra de nada de sua infância nem de como conseguiu suas incríveis habilidades de luta. Posteriormente, descobriremos que Joe foi resgatado quando criança por um ex-soldado japonês veterano da Segunda Guerra Mundial (John Fujioka), que o criou e treinou nas artes do Bushido (literalmente “O Caminho do Guerreiro”, o antigo código de honra dos samurais japoneses).

Contudo, o Sargento Rinaldo elabora um plano para eliminar Joe e o envia para trabalhar em um depósito no porto, onde o nosso herói é atacado por vários ninjas e tem que colocar em prática todas as suas habilidades, resultando em algumas das melhores cenas de luta do filme.


Ninja Americano foi um sucesso nas bilheterias, conseguindo render mais de dez vezes seu custo de produção. Todo esse sucesso permitiu a realização de quatro sequências, das quais Michael Dudikoff participou de duas, “Ninja Americano 2” (1987) e “Ninja Americano 4” (1991), com “Ninja Americano 3” (1989) contando com David Bradley no papel principal. Infelizmente, a qualidade das obras foi decaindo ao longo das sequências, ao ponto de que o último filme nem sequer ser originalmente um filme do Ninja Americano e sim um filme completamente diferente estrelado por David Bradley ao qual a Cannon apenas colocou o nome de “Ninja Americano 5” (1993) para tentar ganhar alguns trocados, pois nessa época a produtora já estava à beira da falência.

Ninja Americano é uma daquelas típicas produções de ação abobadas da década de 80, onde o herói massacra tropas inteiras de inimigos sem sofrer um arranhão sequer e onde os vilões são malvados apenas por que sim, sem nenhum desenvolvimento maior dos personagens. A cena final, onde os dois bandos, o dos vilões e o dos soldados, se enfrentam é tão claramente oitentista que beira o nível do absurdo, com os soldados liderados por Jackson literalmente aniquilando dezenas de oponentes que parecem não perceber que também estão armados e em nenhum momento revidam aos disparos, morrendo calmamente em seus lugares.


Jackson lidera o ataque final contra os bandidos...
... e não economiza munição.
A batalha final entre Joe e o Ninja Black Star

O roteiro também é um ponto a ser destacado nesta obra, devido aos seus absurdos. O plano dos vilões não faz sentido nenhum. Afinal, se eles contam com a cumplicidade do Sargento Rinaldo e sabem que o exército americano não vai revidar aos seus ataques, por que precisam de um exército de mercenários tão grande? E como foi que Ortega conseguiu contratar um grupo de ninjas e qual a verdadeira função desses em seus planos? Por outro lado, por que os militares americanos continuam enviando seus comboios um atrás do outro, mesmo sabendo que eles vão ser roubados? Por que não aumentar a escolta dos comboios? Será que nenhum dos bandidos percebe que todos esses roubos não poderão ficar impunes por muito tempo e logo o governo americano vai abrir uma investigação para saber o que está acontecendo? As situações absurdas mostradas na tela e os furos do roteiro são vários, mas ao final apenas acrescentam alguns elementos a mais na atmosfera trash da obra.

Da mesma forma, as atuações são um verdadeiro espetáculo as avessas, principalmente as do nosso protagonista. Além de não saber lutar, Dudikoff nunca foi um grande ator e isso fica claro em Ninja Americano, onde o ator passa o filme todo com a mesma expressão vazia no rosto, parecendo incapaz de demonstrar qualquer tipo de emoção.

Entretanto, o fato de Dudikoff não saber lutar não foi um grande empecilho para a realização de Ninja Americano. O diretor Sam Firstenberg resolveu utilizar a mesma técnica que já havia sido usada em “Ninja, A Máquina Assassina”, ou seja, colocar o coreógrafo Mike Stone para realizar as cenas de ação e filmar estas cenas com cortes e efeitos sutis, de modo a esconder do público a verdadeira identidade de quem estava na tela. O resultado dessa técnica foi tão bom que é muito difícil que alguém consiga perceber à primeira vista que não é Dudikoff que está em cena chutando e golpeando os ninjas inimigos. Mike Stone já tinha feito esse tipo de substituição em cenas de ação ao realizar as lutas no lugar do ator Franco Nero, em “Ninja, A Máquina Assassina”. Franco Nero também não sabia lutar e seria mais recordado por suas atuações em filmes de faroeste italiano (os spaghetti western) e por ter interpretado o Django original em “Django” (1966).  

Franco Nero em "Django"

Ao fim e ao cabo, Ninja Americano foi um marco no cinema de ação trash dos anos 80 e é recordado até os dias de hoje como uma obra muito divertida.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Portal

O Portal (1987)

O pequeno Glen (Stephen Dorff) chega em sua casa após um passeio de bicicleta pela vizinhança. Ao entrar na casa, Glen percebe o quanto ela está silenciosa e vazia. O menino chama por seus pais repetidas vezes, mas não é atendido. Aparentemente, ele é a única pessoa na casa. De repente, escurece misteriosamente. Um televisor na sala de estar se liga sem que ninguém toque nele. Assustado, Glen resolve ir até sua casa na árvore, enquanto uma tempestade está se formando nos céus. Ao chegar lá, ele encontra uma daquelas bonecas que dizem “Mamãe” quando você aperta sua barriga. Repentinamente, um raio atinge a árvore, que começa a cair, levando a casa e o menino junto.

Glen desperta em sua cama. Tudo não passou de um pesadelo. Bem, quase tudo, pois ao olhar pela janela o menino vê que a árvore no quintal realmente caiu e está sendo removida por uma equipe de operários. Curioso, Glen vai até o quintal ver os operários trabalhando. Quando eles retiram as raízes da árvore, um estranho objeto redondo cai no chão e se parte. Glen pega os pedaços do objeto e percebe que se trata de um geode (um tipo de formação rochosa com cristais em seu interior).

Fascinado com sua descoberta, Glen chama seu amigo Terry (Louis Tripp) e este o convence que podem existir mais geodes no buraco de onde a árvore foi removida. Interessados em vender as pedras, os meninos começam a escavar o buraco, o que ocasiona um desmoronamento e revela um largo túnel, similar a uma caverna, que parece se estender por vários metros terra adentro. Na beirada do túnel, os meninos encontram um geode ainda mais grande que o anterior e resolvem guardá-lo. Enquanto isso, um grande bando de mariposas sai do buraco no solo, enquanto Glen discute com sua irmã mais velha, Alexandra (Christa Denton) ou Al, como o menino costuma chamá-la. Parece que Glen e Al eram muito próximos anteriormente, mas com o passar do tempo os dois foram se afastando e agora a menina prefere passar seu tempo com Lori (Kelly Rowan) e Linda (Jennifer Irwin), as insuportáveis irmãs Lee.

É aqui que somos apresentados a maior paixão de Glen, a construção e lançamento de modelos de foguetes em miniatura. Parece que a última tentativa de lançamento que Glen realizou saiu muito mal e acabou causando estragos na casa. Por isso, seu pai o proibiu de lançar mais foguetes sem supervisão e escondeu seu maior tesouro, Thunderbolt, um foguete bastante grande e imponente. Enquanto glen se lamenta por isso, seu amigo Terry captura algumas das mariposas que saíram do buraco e as coloca em um frasco.

Mais tarde, somos apresentados aos pais de Glen e Al, os quais irão viajar no final de semana e os irmãos querem convencê-los a deixar que eles fiquem sozinhos, sem babá. Embora relutem um pouco, os pais acabam se convencendo de que Al já é madura o bastante e pode tomar conta sozinha da casa e de seu irmão enquanto seus pais estão fora (no que estão redondamente enganados). Por outro lado, o pai de Glen coloca o menino de castigo, por algum motivo, durante todo o final de semana e obriga o garoto a fechar novamente o buraco que ele e Terry abriram.

Naquela noite, o pai de Glen vai até o quarto do menino apagar as luzes e ambos acabam tendo uma conversa. Parece que Glen está assustado por algum motivo misterioso e conta a seu pai uma estória contada a ele por Terry, de que um operário morreu durante a construção de sua casa e os outros operários esconderam seu corpo nas paredes da casa. O pai de Glen acalma seu filho e diz que Terry está triste por causa da recente morte de sua mãe e por isso inventa essas estórias.

No dia seguinte, os pais estão partindo para sua viagem. A última recomendação deles para seus filhos é: “Nada de festas.”. E obviamente, a primeira coisa que Al faz é dar uma festa para seus amigos em sua casa. Como podemos ver, o de menina madura e responsável era uma mentira deslavada.

Pode viajar tranquila, mamãe. Aqui ninguém vai fazer nada irresponsável e idiota como dar uma festa enquanto vocês estiverem fora ou libertar deuses/demônios malignos de uma prisão dimensional. Não se preocupe.

Enquanto os jovens se divertem na sala, Glen e Terry estão no quarto tentando abrir o geode com um martelo e um cinzel. Depois de algumas tentativas, Glen consegue abrir a rocha, de dentro da qual escapa um gás, enquanto os cristais brilham intensamente, de maneira muito estranha. Além disso, a saída do gás ocasionou que algumas palavras e símbolos se formassem em uma embalagem que estava próxima. Os meninos leem as estranhas palavras: Aka-Tuko-Alla-Neta, mas não parecem muito impressionados. E aqui aparece um dos principais problemas do roteiro: seus personagens presenciam coisas extraordinárias e totalmente impossíveis e não se impressionam com nada, agindo como se estivessem diante de fatos ordinários do dia a dia. Muitas vezes parecem estar até entediados com os fenômenos que presenciam.

Na sala da casa, os jovens festeiros estão contando estórias de fantasmas e assombrações. Então, a típica menina estranha que era personagem obrigatório em filmes dos anos 1980 começa a falar com seus amigos sobre poderes paranormais e poderes de levitação. Logo, eles resolvem tentar fazer um deles levitar com o poder da mente. Obviamente, não conseguem. 

Mas é nesse momento que Glen e Terry tentam escapar de fininho da casa, mas são descobertos e os jovens resolvem usar Glen como cobaia em mais um experimento de levitação. Surpreendentemente, Glen realmente começa a levitar e acaba atingindo o teto. Desesperado, o menino tenta voltar para o chão e acaba destruindo uma lâmpada no processo. Assustado, Glen sai correndo e se esconde em seu quarto. Mais uma vez, nenhum dos presentes parece surpreso com o fato de que o rapaz realmente levitou e seguem com a festa como se nada de mais tivesse acontecido.

Al e Terry vão até o quarto de Glen ver se ele está bem. o menino está envergonhado por ter chorado na frente de todos (mas não está assustado por ter flutuado pela sala de sua casa) e sua irmã e seu amigo tentam consolá-lo contando para ele sobre ocasiões em que eles também foram envergonhados em público. Enfim, o menino sai do quarto, mas quer ligar para seus pais e pedir que voltem. Outra vez, nenhum deles parece estranhar o fato de que Glen ter realmente saído voando pela sala, algo completamente impossível pelas leis da física. Ao que parece, todos os personagens desse filme são idiotas.

Tentando convencer Glen a não chamar seus pais, Al diz que Terry vai dormir com eles essa noite e fazer companhia a Glen. Durante a noite, enquanto Terry vai ao banheiro, Glen vê como várias mariposas se juntam na janela do seu quarto. O menino tenta fechar a cortina, mas essa se abre misteriosamente. Ao mesmo tempo, Terry tem uma visão com sua mãe falecida e, emocionado, a abraça, apenas para ver como ela se transforma em Angus, o cachorro de Glen, que logo cai morto no chão.

No dia seguinte, Glen está muito triste pela perda de Angus e quer chamar seus pais de volta para casa, mas Al insiste que ela pode cuidar de tudo sozinha. Logo, as irmãs Lee chegam a casa, junto com Eric (Sean Fagan), o qual se oferece para dar um destino ao cadáver de Angus. 

Enquanto isso, Terry está em sua casa ouvindo rock e descobre algo inusitado no álbum de sua banda favorita. Aparentemente, junto com o álbum veio um livro de magia que, inexplicavelmente, trata sobre o buraco que se abriu no quintal da casa de Glen e o que realmente está acontecendo aí. Como Terry nunca viu esse livro antes? Não faço ideia. Por que uma banda de rock incluiria um livro de magia em seu álbum? Não faço ideia. Como é possível que esse livro de magia trate especificamente do tipo de problema que Glen e Terry estão enfrentando nesse momento? Não faço ideia. Como podem ver, o roteiro não ajuda muito nesses momentos e é o principal ponto fraco do filme.


O álbum que possui todas as respostas. Se você estiver enfrentando criaturas sobrenaturais, basta recorrer ao álbum de qualquer banda de rock obscura que você encontrará a solução para os seus problemas.

De volta a casa de Glen, as irmãs Lee estão tentando convencer Al a ir na praia com elas. Glen fica irritado com sua irmã e ambos discutem, enquanto Glen insulta as irmãs Lee e Eric. Em certo momento, Glen discute com eles sobre o que aconteceu na noite anterior, principalmente sobre o fato de ele ter levitado, ao que Eric responde que tudo não passou de ilusão. Sim, sim, uma ilusão que fez um menino flutuar até atingir a lâmpada no teto da sala e destruí-la. Como podem ver, todos os personagens nesse filme são realmente idiotas. Como ninguém acredita nele, Glen sai da cozinha e vai para o seu quarto. Por outro lado, Al resolve ir à praia com as irmãs Lee e deixa seu irmão sozinho em casa (afinal, maturidade e responsabilidade acima de tudo).

Sozinho e triste, Glen fica recordando os tempos em que ele e sua irmã eram amigos. O menino pega embaixo de sua cama um presente que Al lhe deu em seu aniversário, um lançador automático para foguetes. Entristecido, Glen vai até o quintal, onde encontra Terry, que conta para ele o que descobriu no livro de magia. Os dois meninos cobrem o buraco (que voltou a se abrir) e vão até a casa de Terry, onde leem o livro de magia e tentam elaborar um plano para se livrar do problema.

Mas qual é exatamente este problema? Parece que o buraco no quintal é na verdade um portal para uma dimensão sombria onde estão aprisionados deuses antigos, que governaram o universo antes do surgimento da luz. Esses deuses obscuros podem ser invocados através de um sacrifício que seja depositado no buraco. Uma vez invocados, os deuses macabros buscarão outros dois sacrifícios e, uma vez obtidos esses sacrifícios, poderão governar novamente o universo e espalhar sua maldade por toda a existência.

Os meninos resolvem utilizar um ritual para selar o buraco (ritual este que aprenderam ouvindo o disco da banda ao contrário!) e aprisionar os deuses/demônios novamente. O que eles não sabem é que o imbecil de Eric, ao não conseguir dar um fim digno ao cadáver de angus, resolveu enterrá-lo exatamente no buraco do quintal. Os deuses das trevas entenderam isso como um sacrifício de invocação e estão prestes a se manifestar em nosso mundo.

Glen e Terry realizam o ritual e tudo parece dar certo. Além disso, Al desistiu de ir à praia voltou para casa. Ela também comprou um foguete de presente para Glen, como sinal de paz. Os dois irmãos e Terry lançam o foguete e por algum tempo tudo é sorrisos e alegrias. O perigo parece ter passado e todos estão contentes.


Porém, naquela noite, enquanto Al e as irmãs Lee estão se divertindo no quarto da garota e Terry e Glen estão dormindo no quarto do garoto, as mariposas atacam a janela do quarto de Glen, fazendo os vidros estourarem e quase acertando o garoto. Desesperado, Glen busca a ajuda de Al, que vai até seu quarto dar uma olhada. Intrigados com o porquê Terry não acordou com todo o alvoroço, Al e Glen tentam despertá-lo. É então que Terry aparece atrás dos irmãos, já desperto e de pé. Ao puxarem as cobertas, descobrem que no lugar de Terry está o cadáver de Angus. A partir desse momento, a situação sai completamente do controle. Mães deformadas saem debaixo da cama de Glen e tentam arrastar Al para baixo, mas a menina é salva por seu irmão e por Terry.

Todos saem do quarto gritando desesperados. As irmãs Lee se unem ao alvoroço e todos tentam fugir pela porta da frente. Porém, são detidos pelo que parecem ser os pais de Glen e Al. Aliviado com a ideia de que seus pais estão aí, Glen corre para abraçar seu pai. Porém, logo ele percebe que algo está errado, pois seu pai começa a estrangula-lo. Em desesperado, Glen aperta o rosto da criatura que parece ser seu pai, do qual começa a escorrer uma substancia viscosa e repulsiva. O menino consegue fugir e todos se trancam na casa.

Impossibilitados de fugir pela porta da frente, eles resolvem fugir pela porta dos fundos. Entretanto, quando Al sai para investigar se a área está livre, ela é atacada por um grupo de pequenas criaturas (animadas por um stop motion muito bem feito) e tem que voltar para a casa. Eles tentam buscar o livro de magia no quarto de Glen, mas o livro pega fogo e é destruído. Então, eles apelam para o plano B e pegam a Bíblia, mesmo com Terry avisando que os deuses que estão no buraco são mais antigos do que a própria Bíblia.

Glen, Al e Terry vão até o buraco tentar selá-lo definitivamente, enquanto as irmãs Lee ficam escondidas na casa. Quando chegam na beirada do buraco, Terry começa a ler alguns versículos bíblicos, mas acaba caindo no buraco. Seguem-se alguns momentos de tensão, com Terry sendo atacado pelas criaturas demoníacas, enquanto Al e Glen tentam resgatá-lo. Finalmente, eles conseguem resgatar Terry e o menino, em um ato de desespero, arremessa a Bíblia dentro do buraco, o que ocasiona uma explosão e, aparentemente, fecha a abertura.

Mais uma vez, tudo parece ter terminado. Al, Glen e Terry comemoram. O mal parece ter sido derrotado de vez. Porém, não será tão fácil vencer os terríveis deuses antigos.

O Portal (no original, “The Gate”) é um filme canadense, dirigido por Tibor Takács e com roteiro de Michael Nankin, claramente inspirado em “Poltergeist- O Fenômeno” (1982), o clássico de Steven Spielberg e Tobe Hooper. No Brasil, como é de costume, o filme receberia vários nomes ao longo dos anos, tais como “O Portal do Inferno”, “Túnel para o Inferno” e “O Portão”.

Tibor Takács
Michael Nankin

Um dos pontos fortes do filme são seus efeitos especiais. As criaturas em stop motion são excelentes, conseguindo convencer o espectador. Outro efeito muito bem utilizado no filme para fazer os movimentos destas criaturas foi o efeito de perspectiva forçada, no qual atores vestidos com trajes de borracha foram filmados em uma posição especial de câmera, de modo a que parecessem muito menores na tela. Da mesma forma, as cenas em que objetos pegam fogo e/ou derretem são de uma maestria inesperada e surpreendente. Tudo mérito da equipe de efeitos especiais comandada por Randall William Cook, que futuramente trabalharia nos efeitos especiais da saga épica de “O Senhor dos Anéis”, trabalho pelo qual receberia três Óscares.

Randal William Cook com o Oscar que ganhou pelos efeitos especiais de "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" (2003)
Alguns exemplos de como foram realizados alguns dos efeitos do filme, com os atores usando fantasias e os móveis e cenários construidos de maneira a criar a perspectiva forçada.

Os principais pontos fracos do filme são seu roteiro e as suas atuações. O roteiro de Michael Nankin é bastante vago e impreciso, apresentando situações que simplesmente surgem do nada, seguidas por soluções que igualmente surgem do nada. O fato de que os personagens atuem de maneira completamente indiferente diante das situações mais absurdas também é uma falha do roteiro pouco desenvolvido de Nankin. Alguns conceitos interessantes apresentados, como a banda de rock com conhecimentos reais de magia, a origem e a mitologia dos deuses sombrios aprisionados no buraco e a questão do simbolismo das mariposas e dos geodes, poderiam ser mais aprofundados por um roteiro melhor escrito, mas aqui ficam apenas jogados na tela e são pouco trabalhados.

As atuações são todas ruins, mas a pior de todas é a de Stephen Dorff como Glen. Em seu primeiro papel para o cinema, Dorff, que futuramente atuaria em “Blade- O Caçador de Vampiros” (1998), é péssimo. Seu personagem está sempre com a mesma cara, nunca demonstrando emoções reais, nem mesmo em cenas onde deveria parecer assustado ou nervoso. Isso impede que o espectador consiga gerar uma maior empatia pelo personagem, algo ainda mais problemático por se tratar do protagonista. O restante do elenco oscila entre medíocres e regulares. A melhor atuação, na minha opinião, é a de Louis Tripp como Terry. Mesmo não sendo a melhor das interpretações, ao menos fez com que eu sentisse simpatia pelo personagem e torcesse por ele.

Embora não tenha sido um fracasso de bilheteria (custou 6 milhões de dólares e arrecadou 13,5 milhões), o filme foi alvo de muitas críticas, principalmente por ser uma cópia obvia de outras obras cinematográficas melhores. Por outro lado, a boa aceitação do público permitiu filmar uma sequência, “O Portal 2- Eles estão de volta” (1990), e garantiu um status de cult a esse filme, fazendo com que fosse recordado com carinho por vários fãs ao longo dos anos.

Ao fim e ao cabo, O Portal é um filme realmente divertido e interessante e merece ser apreciado pelos fãs tanto dos filmes dos anos 1980, quanto pelos fãs do cinema trash.

XB: Galáxia Proibida

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