sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Matar ou Morrer

 

Matar ou Morrer- O Caso Thabata, Bebê Refém (1997)

Houve uma época (principalmente durante as décadas de 1970 e 1980) em que o cinema brasileiro produzia vários filmes do tipo policial, que tinham um público fiel e geravam um bom lucro. Esses filmes tentavam emular os filmes norte-americanos de ação e mostravam policiais brasileiros enfrentando traficantes de drogas e outros tipos de criminosos nas ruas das grandes cidades do Brasil, com direito a muito tiroteio e violência.

A maioria dos filmes deste gênero eram obras ficcionais, embora muitas vezes baseados em algumas situações ou eventos reais. Exemplos disso são os filmes “Ódio” (1977) e “República dos Assassinos” (1979). Algumas obras, entretanto, retratavam casos reais, dramatizando crimes que tiveram certa repercussão na opinião pública ou a trajetória de alguns criminosos famosos. Um bom exemplo é o filme “Eu matei Lúcio Flávio” (1979), sobre a perseguição e morte do criminoso Lúcio Flávio Villar Lírio. Se alguém quiser saber mais sobre o gênero de filmes policiais no Brasil, deixaria aqui um link para um estudo bastante interessante que trata sobre este tema: https://www.bb.com.br/docs/portal/ccbb/Noastrodocrimeocinemapolicialbrasileiro.pdf

Ódio (1977)
República de Assassinos (1979)
Eu Matei Lúcio Flávio (1979)

Matar ou Morrer é um representante das dramatizações cinematográficas de crimes brasileiros que tiveram grande repercussão na época em que ocorreram. Produzido pela Câmera 1 Cinema e Vídeo e dirigido pelo goiano Clery Cunha (que já havia dirigido um filme policial antes, “O Outro Lado do Crime” em 1978, onde trabalhou com o famoso apresentador e radialista Gil Gomes), o filme retrata o caso da tentativa de sequestro da bebê Thabata Eroles, ocorrido em 1987 na cidade de Mogi das Cruzes.

Clery Cunha
O Outro Lado do Crime (1978)

A tentativa de sequestro, que posteriormente se converteu em tomada de refém, foi levada a cabo por dois nikkeis (descendentes de japoneses). Pascoal Katsumi Ishii e Eiji Ishisaki eram estudantes do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas da América Latina, ligada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Força Aérea Brasileira, localizada em São José dos Campos, no estado de São Paulo.

Fachada do ITA

Existem duas versões para o caso Thabata. Uma delas apresenta Pascoal e Eiji como dois estudantes inocentes que estavam passando por dificuldades financeiras na época. Para tentar melhorar um pouco sua situação, os dois rapazes teriam começado a realizar contrabando de mercadorias do Paraguai. O contrabando era, supostamente, transportado em ônibus da empresa Transportes e Turismo Eroles Ltda (que chegou a ser uma das maiores empresas do ramo de transporte de passageiros no Brasil, mas passou por uma crise financeira a partir de 2004 e atualmente está extinta) e o esquema todo contava, mais uma vez supostamente, com a conivência de Toninho Eroles, o diretor da empresa e avô de Thabata, que ganhava uma parte dos lucros. Em uma destas viagens de transporte de muamba, Pascoal e Eiji trouxeram alguns computadores para o professor de natação Antônio Aragão, genro de Toninho e pai de Thabata, o qual posteriormente teria se recusado a pagar o combinado pelos equipamentos. Os dois rapazes foram então até a casa da família Eroles buscar seu dinheiro. A situação se complicou e terminou se convertendo em um caso de tomada de refém.


Alguns ônibus da antiga Transporte e Turismo Eroles

A outra versão do caso é a que é apresentada no filme. Nessa versão, Pascoal e Eiji teriam decidido sequestrar Thabata e sua mãe, Lúcia, para pedir um resgate a família. Porém, devido a inexperiência e nervosismo dos rapazes, a situação saiu do controle e terminou com a morte dos dois.

O único fator comum nas duas versões é a presença do Capitão Conte Lopes como o homem que terminou por resolver o caso e matou Pascoal e Eiji.

Roberval Conte Lopes Lima tinha acabado de ser eleito deputado estadual pelo PPB (Partido Progressista Brasileiro, atual PP- Partido Progressista) e sido licenciado do cargo de capitão da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), uma tropa do Comando Geral da Policia Militar de São Paulo. Segundo a uma das versões do caso (aquela que trata sobre contrabando), Conte Lopes foi chamado por Toninho Eroles para resolver a situação e dar um fim nos dois estudantes. Segundo esta versão, Lopes entrou na casa como um trator, invadiu a força o quarto onde os rapazes estavam junto com a criança e executou os dois a sangue frio, justamente no momento em que os dois estavam tentando se entregar pacificamente.

Conte Lopes na época em que era policial da ROTA

A versão apresentada no filme, baseada na versão oficial do caso, é bastante diferente.

Era fevereiro do ano de 1987. Pascoal e Eiji, os quais tinham sido recentemente expulsos do ITA (segundo esta versão do caso), invadiram a casa da família Eroles com o objetivo de sequestrar Thabata e Lúcia e pedir um resgate. Entretanto, os dois rapazes foram vistos por Lúcia, a qual ligou para seu pai. Logo a polícia chegou à casa e os criminosos desesperados se trancaram em um dos quartos com a pequena Thabata, então um bebê de poucos meses.

O caso rapidamente ganhou repercussão e a imprensa começou a transmitir a situação ao vivo. Repórteres muito conhecidos na época como o radialista e apresentador Gil Gomes (que passaria a chamar o ITA de “Instituto de Treinamento de Assassinos”) e Jacinto Figueira Júnior, o famoso “Homem do Sapato Branco” (que, inclusive, faz uma ponta logo no início do filme interpretando a si mesmo a apresentando o caso) deram ampla cobertura ao caso.

Gil Gomes na época do programa "Aqui e Agora" do SBT nos anos 90
Jacinto Figueira Júnior (sentado) e seu icônico sapato branco

Depois de horas de negociações infrutíferas, que teriam envolvido até mesmo a participação de um juiz, um promotor e um bispo, os rapazes seguiam irredutíveis. A família estava desesperada e a situação parecia se encaminhar para um final trágico. É então que chega o capitão Conte Lopes (interpretado por ele mesmo). Após algumas tentativas de negociação e percebendo que os criminosos não iam se entregar, Lopes resolve dar um fim aquela situação. Com a Magnum .44 em punho, adentra o quarto e confronta os rapazes, que terminam mortos.

Após a conclusão do caso, houve duas consequências diretas. Primeiramente, Conte Lopes se tornou uma espécie de celebridade e foi capa de revistas e tema de matérias em vários jornais.


Por outro lado, foi aberto um IPM (Inquérito Policial Militar) pelo comando da Polícia Militar do Estado de São Paulo, com o objetivo de investigar a ação do capitão Conte Lopes no caso Thabata. Como Lopes já havia sido diplomado como deputado estadual quando o inquérito se iniciou, o mesmo tinha imunidade parlamentar e somente poderia ser julgado pelas instâncias jurídicas superiores. Entretanto, Lopes abriu mão da imunidade e aceitou ser julgado pelo tribunal militar. Ao final do inquérito, a atuação de Lopes foi vista como exemplar e o mesmo foi inocentado de toda e qualquer acusação. As conclusões do inquérito terminaram por corroborar a versão oficial do caso.

Mas afinal, o que realmente aconteceu? Qual a versão correta dos fatos? Bem, a resposta é simples e um tanto desanimadora: Nunca saberemos! O tempo passou e o caso se tornou uma verdadeira lenda em Mogi das Cruzes. Os fatos se diluíram na memória coletiva e atualmente é impossível saber com exatidão o que realmente ocorreu. Durante a elaboração desta resenha, realizei uma pesquisa e pude levantar algumas informações.

Primeiro, os dois rapazes mantiveram Thabata refém por mais de nove horas. Durante este período, os rapazes se recusaram várias vezes a se render.

Segundo, Conte Lopes apareceu na casa cerca de quatro a cinco horas depois do início da operação e ficou por ali durante muito tempo, conversando com os familiares da criança e com os outros policiais. Ou seja, o então capitão da reserva não invadiu a casa a força e nem mesmo forçou sua participação no caso.

Terceiro, a criança foi levada a um hospital após o resgate e passou por uma cirurgia de emergência para tratar de ferimentos no abdômen e no tórax causados por golpes de um instrumento cortante, possivelmente uma faca ou canivete. Ou seja, um dos rapazes, ou ambos, golpeou a criança com um objeto cortante, talvez na tentativa de matá-la. Isso desmente a versão de dois “estudantes inocentes” e põe em dúvida a ideia de que ambos pretendiam se entregar pacificamente pouco antes de serem mortos por Conte Lopes.

Quarto, os exames de pericia médica e de balística anexado ao IPM comprovaram que ambos os rapazes foram mortos por disparos certeiros na cabeça, disparos estes executados de frente, sendo que cada um dos rapazes recebeu apenas um disparo. Esta informação desmente a versão de que ao menos um deles teria sido executado posteriormente.

Conte Lopes publicou o livro “Matar ou Morrer” em 1994, contando parte de sua trajetória como policial e relatando sua versão do caso Thabata. O livro de Conte Lopes é também uma resposta ao livro “Rota 66”, lançado em 1993 pelo jornalista Caco Barcellos, o qual acusa o ex-capitão de vários crimes, entre os quais tortura e execução de civis. Posteriormente, o livro de Conte Lopes iria dar origem ao filme “Rota Comando” (2009), onde o ex-capitão faz uma pequena participação. Atualmente, Conte Lopes segue na carreira política filiado ao PL (Partido Liberal), tendo sido reeleito nas ultimas eleições em 2022 com 192.454 votos.

Rota Comando (2009)
Conte Lopes "atuando" em Rota Comando

Já Thabata Eroles, a bebê que foi refém de Pascoal e Eiji, acabou falecendo em 18 de março de 2007, em um acidente de trânsito na Via Dutra, aos 20 anos de idade.

Ao fim e ao cabo, Matar ou Morrer é um filme bastante amador, com atores medíocres, sonografia péssima, montagem tosca e que tenta apresentar uma estranha mescla entre documentário e dramatização. Basta dizer que o melhor “ator” do filme é o próprio Conte Lopes, interpretando ele mesmo. O amadorismo é tanto que logo nos primeiros minutos, aparece um microfone na cena em que Jacinto Figueira Júnior aparece apresentando o caso. Com certeza não é nenhuma obra-prima, mas percebe-se que é um filme feito com muita boa vontade e esforço.

Vale a pena dar uma olhada se você for curioso e quiser conferir um típico filme policial brasileiro de baixíssimo orçamento.

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Godzilla

 Godzilla (1998)

Eu realmente nunca gostei de filmes com monstros ou robôs gigantes. Eu entendo que esse tipo de filmes tem muitos fãs, mas eles nunca conseguiram me conquistar. Em minha opinião, filmes desse gênero são sempre recheados de clichês, com roteiros muito decepcionantes e personagens humanos desinteressantes.

Porém, existe um filme de monstro gigante que eu realmente amo, a ponto de ter ele como um dos meus 50 filmes favoritos. Esse filme é “Godzilla”, o original de 1954, dirigido por Ishirô Honda e produzido pela lendária Toho Studios. Essa obra é simplesmente fantástica, com um roteiro fabuloso, atuações primorosas e personagens humanos realistas e interessantes, com os quais é possível empatizar de verdade. E o melhor de tudo, esse filme apresentou para o mundo um dos personagens mais lendários do cinema, o monstro atômico Godzilla, que conquistaria legiões de fãs pelo mundo todo ao longo dos anos.


Atualmente, o monstro Godzilla já conta com 32 filmes, divididos em três fases: A Fase Showa, que vai de 1954 a 1975 e conta com 15 filmes, a Fase Heisei que vai de 1984 a 1995 e conta com 07 filmes e a Fase da Era Millenium, que vai de 1999 a 2004 e conta com 06 filmes. Além disso, existem alguns filmes independentes que não se encaixam em nenhuma das fases, além de séries animadas, histórias em quadrinhos e filmes produzidos fora do Japão com autorização da Toho.

Em meio a todas essas obras, existem alguns filmes muito bons como o original de 1954, “Godzilla vs. King Ghidorah” (1991), “Godzilla vs. Mothra” (1992) e “Shin Godzilla” (2016), e outros muito ruins como “O Filho do Godzilla” (1967), “Godzilla vs. Megalon” (1973) e a atrocidade “Godzilla: All Monster Attack” (1969).

Godzilla Vs King Ghidorah (1991), um dos melhores

Godzilla: All Monster Attack (1969), de longe o pior

Nos anos 1990, Godzilla estava no auge da sua popularidade, tanto no Japão quanto no restante do mundo. O lagarto atômico mais amado de todos os tempos tinha protagonizado alguns dos seus filmes mais interessantes na primeira metade dessa década e os produtos licenciados com sua imagem vendiam como água em todo o planeta, criando uma verdadeira Godzillamania.

Godzilla chegou a ter uma série animada produzida pelo estúdio Hanna-Barbera com duas temporadas entre 1978 e 1979...

... e teve uma série de histórias em quadrinhos publicados pela Marvel Comics entre 1977 e 1979

Tendo isso em mente, surgiu o projeto de um filme norte-americano de Godzilla. Esse projeto foi pensado originalmente pelo produtor Henry G. Saperstein e oferecido a Sony Pictures, para a Columbia Pictures e para a TriStar Pictures, mas todas rejeitaram a ideia, pois acreditavam que Godzilla era um personagem que apenas interessava as crianças e não renderia muito dinheiro em um filme de ação no estilo de Hollywood. Somente quando o produtor Cary Woods levou o projeto direto a Howard Peter Gruber, CEO da Sony, foi que a ideia começou a avançar.

Gruber deu o sinal verde para o projeto, o qual foi encarregado aos produtores da Tristar Pictures, uma das subsidiarias da Sony. Em 1992 foram adquiridos junto a Toho Studios, os direitos para uma adaptação cinematográfica norte-americana de Godzilla e a TriStar anunciou seus planos de criar um remake da obra original da Toho e produzir uma trilogia de filmes com o famoso monstro gigante.

Inicialmente foi contratado Jan de Bont como diretor e o filme devia ser lançado no verão de 1996. Sam Winston e sua famosa equipe de efeitos especiais foi contratada para produzir os efeitos do filme. Ted Elliot e Terry Rossio foram encarregados do roteiro. Mas, devido a discussões em relação ao orçamento, DeBont desistiu do projeto em 1994 e o filme entrou em ponto morto.

Jan de Bont

Em 1996, Roland Emmerich foi contratado como novo diretor e Dean Devlin assumiu como o produtor principal do filme. Com a garantia da TriStar de que teriam liberdade criativa para realizar a obra da forma como acreditassem ser melhor, os dois começaram a trabalhar no projeto. Suas primeiras atitudes a frente da obra foram a descartar o roteiro inicial escrito por Elliot e Rossio, junto com todas as ideias criadas por De Bont. O objetivo era criar um filme completamente novo, que tivesse o espirito do monstro japonês original, mas que trouxesse uma imagem mais moderna.

Roland Emmerich

Dean Devlin

Para ajudar a consolidar toda a confiança concedida pelo estúdio a dupla Emmerich/Devlin, naquele mesmo ano de 1996 o diretor Emmerich lançou “Independence Day” e viu o filme se converter em um dos maiores sucessos de público, critica e bilheteria da década de 1990, rendendo mais de 800 milhões de dólares. Com esse histórico vencedor como apoio, Emmerich pode bancar todas as suas ideias na realização de seu novo filme.

Independence Day (1996)

Godzilla começa com imagens de testes nucleares realizados pelo governo francês nos territórios da Polinésia Francesa. A radiação das explosões atômicas termina atingindo um ninho de ovos de iguana, causando mutações.

Alguns anos depois, um navio de pesca japonês que navega pelo Oceano Pacífico é atacado por uma misteriosa criatura e apenas um marinheiro consegue sobreviver. Esse sobrevivente é resgatado e levado a um hospital no Taiti, onde acaba sendo interrogado por um misterioso homem francês. O sobrevivente responde as perguntas com uma única palavra: “Gojira”.

Nesse ínterim, somos apresentados ao Dr. Niko “Nick” Tatopoulos (Matthew Broderick), nosso protagonista, o qual está realizando pesquisas na Zona de Exclusão do desastre na usina de Chernobyl, na Ucrânia. O Dr. Tatopoulos está estudando os efeitos da radiação na fauna local, mas é interrompido por um agente do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que precisa que Nick realize um trabalho importante para o governo americano.

E é aqui, em minha opinião, que o filme apresenta o seu maior defeito. Matthew Broderick é um ator bastante mediano e não consegue convencer como um protagonista em um filme de ação. Muitos fãs mais velhos ainda se lembram com carinho de seu trabalho mais reconhecido, o filme “Curtindo a Vida Adoidado” (1986) e reverenciam a capacidade de Broderick como ator, mas eu realmente não consigo engolir seu trabalho. Embora aceite a opinião favorável que muitas pessoas possam ter por ele, eu nunca gostei das atuações de Broderick e sempre que ele aparece em tela, na minha opinião, o filme decai imediatamente de qualidade.

Nick é levado até o Panamá, onde aparentemente uma criatura monstruosamente grande causou estragos em uma zona rural, deixando para trás enormes pegadas e um rastro de destruição. Enquanto está ali, conhece ao Coronel Hicks (Kevin Dunn) e a Dra. Elsie Chapman (Vicki Levis), os responsáveis por investigar o que aconteceu naquele lugar. Os três juntos assistem a uma fita VHS enviada pelo governo francês onde aparecem imagens do navio japonês atacado e do interrogatório do marinheiro sobrevivente.


Na cidade de Noiva York, somos apresentados a Audrey Timmonds (Maria Pitillo), uma jovem secretaria no canal de televisão WIDF News e que está buscando uma promoção em seu trabalho. Para conseguir sua promoção a repórter, Audrey trabalha como uma escrava para seu insuportável chefe, o apresentador Charles Caiman (Harry Shearer), o qual a explora de todas as formas possíveis. Ao ser assediada sexualmente por Caiman, que exige que ela realize um jantar íntimo para os dois em seu apartamento, Audrey percebe o tamanho da enrascada em que está metida.

Na Jamaica, Nick, Elsie e o Coronel Hicks investigam um navio cargueiro que foi atacado por uma criatura enorme, a qual rasgou o casco do navio com suas garras. Enquanto realizam seu trabalho, são abordados pelo mesmo francês misterioso que interrogou o sobrevivente japonês no Taiti. O francês tenta conversar com o coronel, mas este termina expulsando-o.

Enquanto isso, a criatura se aproxima dos Estados Unidos. Alguns barcos de pesca são atacados e afundados nas águas territoriais americanas e tudo isso não faz nenhum sentido lógico. Aliás, nenhuma das atitudes do monstro faz sentido. Afinal, por que ele deixou as águas da Polinésia Francesa e nadou milhares de quilômetros até a América Central, cruzou o estreito do Panamá e entrou nas águas do Oceano Atlântico? O roteiro do filme dá a entender que a criatura fez isso em busca de peixes para comer. Mas isso também não faz sentido. Se ela necessita de peixes, bastaria seguir as correntes oceânicas e caçar os grandes cardumes que existem em alto mar. Atacar barcos de pesca ou de carga para obter comida é algo completamente sem propósito, haja visto que a criatura poderia obter muito mais alimento com muito menos esforço apenas comendo os peixes que encontrasse livres no mar. Além disso, cruzar o estreito do Panamá é algo absurdo. Afinal, como a criatura soube que havia outro oceano do outro lado do estreito? E por que trocar de oceano? A criatura estava entediada? Nada faz sentido.

Porém, fazendo sentido ou não, a criatura chega à Nova York. Enquanto isso, Nick apresenta sua teoria de que a criatura é uma espécie animal mutada pela radiação dos testes nucleares na Polinésia Francesa, descartando a teoria da Dra. Chapman de que se trata de um dinossauro que sobreviveu a extinção de seus semelhantes e permaneceu oculto durante centenas de milhares de anos.

Em Nova York, Audrey reclama com seus amigos sobre o comportamento asqueroso de seu chefe. É nesse momento que ela percebe uma reportagem na televisão da lanchonete onde está e vê Nick durante sua passagem pelo Panamá. Somos então informados de que estes dois tiveram um relacionamento na universidade e parece que ainda existe um forte sentimento entre eles.

Mas não temos tempo para romance. A criatura chegou à cidade e começa a deixar um rastro de destruição por onde passa. Emergindo do oceano em uma cena incrível no porto da cidade, o monstro avança lentamente pelas ruas, causando pânico e desespero nos nova-iorquinos, acabando inclusive com um comício do prefeito.

Uma das cenas mais recordadas deste filme acontece quando um dos amigos de Audrey, o cameraman Victor Palotti (Hank Azaria) se coloca no meio da rua para poder filmar o monstro e quase é esmagado pela gigantesca pata da criatura. Me lembro de ter visto esta cena quando criança e de ter ficado abismado com ela.

O vídeo gravado por Victor é divulgado na televisão e informa todo o país sobre a situação catastrófica. Percebendo o tamanho (literalmente) do problema, os militares assumem o controle da situação e ordenam a evacuação imediata da ilha de Manhattan. O Dr. Nick e a Dra. Elsie se juntam ao comando militar para tentar elaborar uma solução para a crise.

Enquanto isso, Audrey resolve fazer uma última tentativa para conseguir sua promoção. Percebendo que Nick está trabalhando junto com os militares no comando militar em Nova Jérsei, ela tenta convencer seu chefe a deixá-la ir até lá para conseguir mais informações sobre a criatura. Infelizmente, Caiman continua se comportando como um machista asqueroso e rejeita as ideias de Audrey. Ela, porém, consegue roubar o crachá de imprensa de Caiman e parte para Nova Jérsei com o objetivo de conseguir as informações a qualquer custo.

O prefeito Ebert (Michael Lerner) concorda com a evacuação ordenada pelos militares e transfere seu gabinete para fora de Manhattan. Quando seu helicóptero pousa fora da ilha é recebido por um grupo de empresários furiosos com os danos que a evacuação irá causar em seus negócios. Entre estes empresários está o francês misterioso, o qual aproveita a situação para plantar uma escuta nas roupas do prefeito.


Os militares descobrem que o monstro está usando os tuneis do metrô da cidade para se esconder (algo que realmente não entendo, pois não me parece que a criatura possa caber nestes tuneis). Com o objetivo de atrair a criatura para fora, uma armadilha é preparada, com uma enorme pilha de peixes cercada por tanques de guerra e tropas armadas no famoso cruzamento entre a Fifth Avenue, a Broadway e a 23rd Street. Toda essa movimentação é observada de longe pelo francês misterioso e seus colegas.

O cruzamento entre a Fifth Avenue, a Broadway e a 23rd Street

O plano funciona e a criatura emerge do subterrâneo para comer. É nesse momento que podemos ver seu enorme corpo por inteiro pela primeira vez. Enquanto o monstro gigantesco come, os militares abrem fogo, mas não conseguem feri-lo. Durante o combate, o lendário edifício Flatiron Building é destruído. O monstro foge e é perseguido por helicópteros Boeing Ah-64 Apache. Durante a perseguição, os helicópteros acabem destruindo outro famoso edifício da cidade, o Chrysler Building. Aparentemente, o maior perigo para Manhattan não é a criatura, mas sim os militares enviados para enfrentá-la.


Flatiron Building

Chrysler Building

A operação militar termina com um fracasso completo e os helicópteros são destruídos. Ao retornar a Nova Jérsei, Nick se reencontra com Audrey. Inicialmente, os dois não parecem não se sentir muito confortáveis com o reencontro, mas logo a situação parece se relaxar um pouco e Nick leva Audrey até seu laboratório improvisado, onde os dois conversam sobre a natureza da criatura que está destruindo Manhattan. É durante esta conversa que Nick faz uma importante descoberta e brinda a audiência com uma das cenas mais criticadas deste filme. Usando um teste de gravidez de farmácia, ele descobre que a criatura está gravida. E isso é completamente absurdo. Como é possível que um simples teste de gravidez desenvolvido para analisar o nível hormonal de uma mulher humana, um mamífero que se reproduz por gestação interna, seja capaz de demonstrar a gravidez de um anfíbio mutante que se reproduz através de ovos? Claramente esse filme ignora completamente todos os conceitos sobre biologia, tanto humana como animal.

Baseado em sua absurda descoberta, o Dr. Nick deduz que o monstro é hermafrodita e veio até Nova York para fazer um ninho para colocar seus ovos. Fascinado por estas deduções, Nick resolve levar estas informações ao comando militar e pede que Audrey espere por ele ali no laboratório.

E mais uma vez somos apresentados a uma situação sem nenhum sentido lógico ou explicação. Afinal, por que Godzilla escolheu Noiva York para fazer seu ninho? Segundo o Dr. Tatopoulos, a criatura escolheu a cidade pois é uma ilha enorme, cercada de água e onde pode se esconder perfeitamente. E tudo isso é uma bobagem sem tamanho. Se Godzilla queria uma ilha como ninho, poderia ter escolhido entre centenas de ilhas desabitadas que existem no Oceano Pacífico, onde poderia se esconder e teria a vantagem de não ser perturbada por um monte de humanos fortemente armados e decididos a exterminá-la.

Logo que fica sozinha no lugar, Audrey descobre uma fita VHS com as imagens sobre o que aconteceu no Panamá e o interrogatório do marinheiro japonês sobrevivente do primeiro ataque e a rouba para entregar ao seu chefe e conseguir sua promoção.

Entretanto, para azar de Audrey, seu chefe termina roubando sua matéria e atribuindo a si mesmo todos os méritos pelas informações obtidas. Usando as imagens roubadas por Audrey, Caiman faz uma reportagem bombástica e nomeia a criatura como Godzilla após cometer um erro de tradução da palavra dita pelo sobrevivente japonês. Ao mesmo tempo, os militares assistem a reportagem na televisão e acreditam que Nick é o responsável por ter divulgado as imagens. Assim sendo, descartam a teoria de Nick de que a criatura pode estar grávida e o expulsam da equipe.

Desolado, Nick resolve partir de Nova Jérsei. Antes de sair da cidade, porém, ele se encontra com Audrey e declara estar muito desapontado por ela ter traído sua confiança e roubado a fita com as imagens. Depois de discutir com Audrey, Nick toma um taxi para o aeroporto, mas acaba sendo recolhido pelo misterioso francês que esteve observando a situação até este momento. O francês se apresenta como Philipe Roaché (Jean Reno), um agente do serviço secreto francês que lidera uma equipe de comandos de forças especiais com a missão de destruir Godzilla e limpar o nome da França, antes que surja um escândalo internacional e a situação saia definitivamente fora de controle.

Os franceses recrutam Nick para ajudá-los a destruir o ninho de Godzilla, que eles descobrem que está localizado dentro do estádio do Madison Square Garden. Enquanto isso, Godzilla emerge do subsolo e enfrenta o exército americano, no que parece ser a batalha final.

Embora não tenha sido um fracasso de bilheteria (custou 130 milhões de dólares para ser produzido, mais 80 milhões em marketing e divulgação e arrecadou mais de 379 milhões de dólares), Godzilla foi muito criticado tanto pelos fãs do monstro japonês quanto pela critica especializada, principalmente devido ao seu roteiro fraco, a atuação pouco dedicada de alguns membros do elenco e a direção errática de Roland Emmerich. Devido a todas essas críticas e por não terem conseguido alcançar a bilheteria desejada (lembrando que para um filme ser considerado realmente lucrativo este deve render, no mínimo, o triplo do que custou), os planos originais da TriStar para uma trilogia foram definitivamente enterrados.

Matthew Broderick e Maria Pitillo durante um evento de divulgação de Godzilla

Roland Emmerich junto com Matthew Broderick e Jean Reno durante as filmagens de Godzilla

O principal problema foi o desastre financeiro ocasionado pelo fracasso do licenciamento da marca Godzilla. Os produtores imaginavam que o filme seria um sucesso avassalador nos moldes de “Independence Day” e isso geraria uma fortuna com a venda de produtos licenciados como mochilas, roupas, tênis, bonés, bicicletas e brinquedos variados. Por isso, investiram pesado em marketing e divulgaram o filme em todas as mídias possíveis. Mas, ao contrário do que se imaginava, o filme não gerou o envolvimento esperado junto ao público, a mercadoria encalhou nas lojas e causou um enorme prejuízo as empresas que investiram nesse projeto.

Alguns exemplos da publicidade feita para Godzilla: "É tão longo quanto este sinal"...

... e um ônibus totalmente decorado com propaganda: "Sua pegada é mais longa que este ônibus", "Dos criadores de Independence Day. Godzilla. O tamanho importa."

Porém, apesar de todas as críticas e problemas, Godzilla conseguiu angariar uma pequena legião de fãs e inclusive deu origem a uma série animada com duas temporadas produzida pela Adeliade Productions. A série foi surpreendentemente bem feita e ajudou a elevar o número de fãs da versão americana de Godzilla. No Brasil, a série foi exibida a partir de 1999 pela Globo no programa Angel Mix, apresentado de segunda a sexta-feira pela Angélica, e teve um grande sucesso. Aliás, muitos espectadores brasileiros assistiram primeiro a série animada e somente tempos depois assistiram ao filme que deu origem a ela.

Godzilla, a série animada

No Japão, Godzilla teve a mesma recepção apresentada pelo público norte-americano: inicialmente, foi um sucesso expressivo, mas lentamente o entusiasmo do público foi decaindo ao longo das semanas. Muitos fãs japoneses disseram que se sentiram decepcionados com a obra. O ator Kenpachiro Satsuma, que interpretou Godzilla nos filmes da Fase Heisei, abandonou uma sessão do filme afirmando que “não é Godzilla, não tem o espírito dele”. Da mesma forma, Haruo Nakajima, que interpretou Godzilla em vários filmes da Fase Showa, também criticou o filme norte-americano e disse que o monstro do filme “parece uma iguana e seu corpo e membros parecem um sapo”. Apesar das críticas, a Toho faturou uma boa quantidade de dinheiro através dos direitos de adaptação. Com esse dinheiro, a Toho deu início a Fase Millenium de seu monstro atômico e lançaram, em 1999, “Godzilla 2000”. Um dos motivos declarados pela produtora japonesa para a realização deste filme foi a de apagar a imagem que tinha sido criada para o personagem pelo filme norte-americano. Para diferenciar o Godzilla original daquele criado pela TriStar, a versão de 1998 passou a ser chamado pelos japoneses de Zilla.

Godzilla 2000 (1999)

Para dar um final definitivo ao Zilla, o filme "Godzilla: Final Wars" (2004) colocou a versão norte-americana enfrentando a versão original japonesa e sendo derrotado da forma mais humilhante possível.




Os efeitos digitais hoje em dia parecem bastante medíocres, principalmente se comparados a obras modernas que contam com um CGI muito superior. Entretanto, na época de lançamento do filme foram bem aceitos pelo público. Eu mesmo fiquei deslumbrado por esses efeitos a primeira vez em que assisti ao filme. Porém, a medida que fui assistindo novamente ao longo dos anos, pude perceber que os efeitos realmente deixam um pouco a desejar em certos momentos, com o monstro apresentando uma textura estranha e não se mesclando com seu entorno, parecendo muito claramente algo inserido de maneira artificial.

Inicialmente, a ideia de Emmerich era utilizar um animatrônico para simular os movimentos do monstro na maioria das cenas, deixando o CGI apenas para algumas cenas menos importantes. O animatrônico chegou a ser realmente construido e usado em algumas filmagens. Entretanto, a preocupação com os custos de produção e a demora nas filmagens terminou por colocar o CGI como a principal fonte dos efeitos e relegou os efeitos práticos a uma posição secundária.

Algumas imagens do animatrônico construído para as filmagens

Por outro lado, o design da versão norte-americana do Godzilla foi considerado uma verdadeira heresia por grande parte dos fãs. Baseado em desenhos feitos por Patrick Tatopoulos, o monstro foi influenciado claramente pela febre por dinosssauros que varreu o público durante a década de 90, capitaneada pelo sucesso estrondoso de "Jurassic Park" (1993). Com uma mescla entre uma iguana e um tiranossauro, o design foi aprovado pelos executivos da Toho, mas não convenceu os fãs.

Um dos desenhos conceituais de Tatopoulos para o Godzilla

 O humor do filme é outro de seus defeitos. As piadinhas são totalmente deslocadas dentro do roteiro e não fazem sentido. Uma das piadas apresentadas é a de que o sargento O’Neal (Doug Savant), responsável pelas operações militares dentro da cidade, é gago e não consegue informar direito seus superiores. Outra amostra de “humor” é o fato de que nas poucas (pouquíssimas) vezes em que Godzilla usa seu sopro atômico, se houve o rugido de uma pantera.

O roteiro é muitas vezes absurdo e apresenta muitos furos. Além das muitas situações sem sentido (algumas das quais já abordei anteriormente), o espectador termina o filme com muitas mais perguntas do que respostas. Algumas das questões que nunca são respondidas durante o filme: Como os militares conseguiram evacuar a parte mais populosa da maior cidade do mundo em menos de um dia? Como Godzilla consegue se movimentar tão bem dentro de uma cidade que nunca havia conhecido antes, a ponto de conseguir realizar emboscadas aos militares e se ocultar rapidamente sem esforço?

Ao fim e ao cabo, Godzilla não é realmente um filme ruim, mas também não é uma obra digna o suficiente para ser considerado um filme bom. É, na verdade, um filme puramente guilty pleasure, que conquistou sua própria legião de fãs e permanece até os dias atuais como uma obra que marcou muitas infâncias.

 

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