domingo, 8 de maio de 2022

Laserblast

 

Laserblast/O Raio Destruidor (1978)

Um homem (Steve Naill) vaga desorientado pelo deserto. Seu rosto apresenta uma estranha cor verde e em seu braço está um estranho aparato. O homem parece exausto e confuso, como se não compreende-se o que está fazendo naquele lugar. De repente, uma estranha nave aparece nos céus e logo pousa no solo do deserto. Da nave descem duas criaturas alienígenas humanoides, similares a tartarugas sem casco, que são atacadas pelo homem, que usa o aparato em seu braço, que descobrimos ser uma arma capaz de emitir um raio laser mortal. Entretanto, apesar dos esforços do homem, os alienígenas acabam o matando e desintegrando seu corpo. Apenas a arma que ele levava no braço e um estranho colar que ele usava no pescoço ficam intactos. Após eliminar o homem, os alienígenas voltam para sua nave e partem.


Na cena seguinte, conhecemos nosso protagonista, Billy Duncan (Kim Milford), um típico jovem de uma cidadezinha norte-americana. Sua mãe (Janet Dey) vai sair em uma viagem para Acapulco, o que faz com que Billy acabe sozinho em casa. Totalmente entediado, Billy resolve ir visitar sua namorada Kathy Farley (Chery Smith), mas acaba sendo impedido pelo avô da jovem, o Coronel Farley (Keenan Wyn), um ex-militar aposentado que parece ter alguns parafusos a menos.

Revoltado com o tratamento com que foi recebido na casa de sua namorada, Billy sai dirigindo pela estrada e é parado por uma dupla de policiais, Jesse Jeep (Barry Cutler) e Pete Ungar (Dennis Burkley), os quais são bastante abusivos e acabam lhe aplicando uma multa por excesso de velocidade. 

Após receber a multa, Billy vai até um posto de gasolina para beber uma Coca-Cola e espantar o calor. Mas nem mesmo ali o nosso protagonista tem paz e é desafiado por uma dupla de idiotas locais, Froggy (Eddie Deezen, conhecido por ter atuado em “Grease: Nos Tempos da Brilhantina”, naquele mesmo ano de 1978) e Chuck (Mike Bobenko), para uma corrida com seus veículos. Para a humilhação de Billy, sua van se recusa a funcionar e os dois idiotas vão embora rindo de sua situação. Nesse momento, o espectador já percebeu que Billy não gosta muito de sua cidade e não é muito apreciado pelos demais habitantes.

Abatido, Billy vai até o deserto para dar uma caminhada. E é ali que ele acaba descobrindo os objetos deixados junto aos restos desintegrados do homem que vimos no princípio do filme. Inicialmente, Billy resolve brincar um pouco com o aparato desconhecido para ele (em uma cena um tanto longa e ridícula), mas logo descobre que ao portar o colar junto com o aparato, é possível acionar seu poder destruidor e disparar o poderosíssimo laser. Encantado com o poder da arma, Billy começa a disparar aleatoriamente em alguns arbustos e cactos, se divertindo em vê-los explodir.

Por outro lado, as brincadeiras de nosso protagonista com a arma parecem atrair a atenção das criaturas alienígenas do início do filme, que começam a monitorar a situação com seus equipamentos e descobrem que um outro humano está portando os objetos. Os alienígenas se comunicam com o que parece ser seu líder e comunicam a situação, ao que são ordenados a retornar a Terra e resolver o assunto definitivamente. Aqui surge uma questão importante: se os alienígenas sabiam que os objetos eram perigosos, por que os deixaram largados no deserto ao invés de recolhe-los após matar o primeiro homem que os estava portando? A resposta é clara: nunca saberemos.

Enquanto isso, Billy (devidamente sem camisa, mas vestindo calças jeans e usando tênis) vai a uma festa de aniversário com Kathy. Durante esta festa, Kathy percebe que seu namorado tem uma marca de queimadura no peito, mas ele desconversa dizendo que não se trata de nada sério. Algum tempo depois, já no final da festa, Froggy e Chuck tentam abusar sexualmente de Kathy. Billy tenta defender sua namorada, mas é atacado a traição por Chuck, tendo que ser salvo por Kathy. 


A situação parece acabar se resolvendo, mas naquela mesma noite Billy aparece observando o carro de Chuck a distância, usando o colar e arma. Em certo momento, ele resolve disparar conta o carro, destruindo-o. Todavia, Chuck e Froggy escapam ilesos.

No dia seguinte, Billy desperta sem lembranças do ocorrido e vai a um encontro com Kathy. Logo a garota percebe que o machucado no peito do rapaz cresceu rapidamente de um dia para outro e parece estar infeccionado. Após insistir para que ele vá a um médico, Billy termina aceitando e marca uma consulta com o Dr. Mellon (Roddy McDowall, famoso por atuar como o Cornellius do clássico “O Planeta dos Macacos”, de 1968), o qual faz uma cirurgia no peito do rapaz e parece resolver o problema. Embora o médico tranquilize Billy e Kathy sobre o problema, ele na verdade está espantado com o que acabou de remover do peito do rapaz e resolve levar a amostra até um colega seu em uma cidade próxima. Porém, durante a viagem até a cidade, mais uma vez surge Billy usando o colar e portando a arma e destrói o carro do Dr. Mellon, matando-o no processo.

No outro dia, o agente Tonny Craig (Gianni Russo) está investigando o local do acidente e descobre um estranho pedaço de metal e resolve ficar com ele para investigar. Esse agente chegou recentemente na cidade e está investigando os acontecimentos estranhos que estão acontecendo por ali. Desconfiado de que aquele pedaço de metal esconde um segredo, o agente o entrega a Mike London (Rick Walters), o técnico responsável pelo laboratório da polícia, o qual analisa o pequeno objeto e descobre que este é de origem alienígena e parece estar crescendo.

Por outro lado, Billy é abordado novamente pelos dois policiais valentões e levado para testemunhar em relação ao que aconteceu na festa de aniversário. Durante o transporte do jovem até a delegacia, o policial Pete aproveita para golpear e ameaçar Billy impunemente.

Naquela noite, um Billy de rosto esverdeado e se comportando como se estivesse possuído ataca e mata os dois policiais que o tinham agredido anteriormente. Nesse momento do filme, já está claro para o espectador que Billy está sendo controlado de alguma forma pelo colar e a arma alienígenas, os quais o colocam em um estado de fúria e o obrigam a atacar aqueles que, de alguma forma, o prejudicaram.

Como aconteceu anteriormente, Billy desperta no dia seguinte sem nenhuma recordação do que ocorreu e vai a um piquenique com Kathy. Durante este encontro, Billy acaba adormecendo e Kathy coloca inadvertidamente o colar alienígena sobre o peito de seu namorado. Isto faz com que ele se transforme novamente no ser violento e de rosto verde, dominado pelo artefato. Kathy foge e Billy começa a atacar a cidade indiscriminadamente, destruindo tudo que aparece em seu caminho.

Laserblast foi lançado no Brasil com os títulos de “O Raio Destruidor” e “Alienígenas na Terra”. O filme foi produzido por Charles Band, famoso produtor, roteirista e diretor de filmes tipo B e que é conhecido por sua franquia de filmes trash “Puppet Master” (“O Mestre dos Brinquedos”, no Brasil). A direção ficou a cargo de Michael Rae, que teve que se virar com um orçamento mínimo.

Charles Band e sua inabalavel cara-de-pau

O roteiro escrito por Franne Schacht e Frank Ray Perilli para Laserblast é um verdadeiro queijo suíço, cheio de furos. Algumas das tramas do filme, como a dos alienígenas com forma de tartaruga e a do agente Craig simplesmente surgem do nada no filme e nunca são totalmente concluídas. Afinal, para qual agência governamental trabalha Craig? Qual o objetivo dos alienígenas em nosso planeta? Como os artefatos alienígenas chegaram ao homem que os portava no início do filme? Qual a origem destes artefatos e por que eles transformam quem os porta em uma espécie de zumbi enraivecido e com a cara verde? Essas são algumas das perguntas que o roteiro desperta no espectador e que nunca serão respondidas.

Por outro lado, abundam as situações que acontecem em tela apenas por que sim e que não tem nenhuma explicação lógica e que não contribuem em nada para o desenrolar da “trama”. Talvez a mais estranha destas situações acontece na parte final do filme, quando Billy está totalmente possuído e empenhado em destruir tudo ao seu redor. Inexplicavelmente, um homem vê Billy vagando na beira da estrada e resolve dar uma carona pra o rapaz, o qual começa a se comportar normalmente ao embarcar no veículo do homem (até mesmo a maquiagem verde de seu rosto desaparece temporariamente), para logo depois começar a destruir as placas da beira da estrada com seu raio laser. Inclusive, Billy destrói uma placa onde está desenhado o logo de “Star Wars”, em uma espécie de brincadeira sem graça com a maior saga de ficção cientifica do cinema. Essa piada foi obviamente elaborada por Charles Band, o qual já declarou em entrevistas que Laserblast foi produzida para ser uma espécie de "mini Star Wars", de modo a aproveitar o interesse do público por filmes de ficção cientifica, que estava em seu auge devido ao sucesso da obra de George Lucas

Talvez o principal ponto forte do filme sejam as cenas em stop motion dos alienígenas com forma de tartaruga. Estes efeitos ficaram a cargo de David W. Allen, um famoso especialista em efeitos especiais e em stop motion, considerado um dos maiores realizadores neste tipo de técnica. Entretanto, fora isso, os demais efeitos do filme (elaborados por Steve Neill, o mesmo que interpreta o homem morto pelos alienígenas na cena inicial) são ridículos, principalmente a maquiagem que Billy leva no rosto quando está sob o controle dos artefatos alienígenas.

Como todo bom filme trash, Laserblast conta com a presença de atores conhecidos na época ou que viriam a ser conhecidos posteriormente. A presença de Roddy McDowall, Eddie Deezen e Keenan Wynn (ator reconhecido por ter atuado em vários papéis secundários em filmes desde os anos 1930) acrescenta um charme a mais a esta obra.

Eddie Deezen como Froggy

Ao fim e ao cabo, Laserblast é um filme muito ruim com algumas pouquíssimas qualidades. Não foi por acaso que este filme foi um fracasso de audiência e de crítica, conseguindo arrecadar pouco mais de 300 mil dólares em bilheteria. Atualmente, este filme é um dos 100 piores filmes no IMDb (Internet Movie Database), mas tem sua pequena legião de fãs e conseguiu um status de cult. Inclusive, devido a estes fãs, foi publicada em 2017 pela editora Eibon Press uma versão do filme em uma história em quadrinhos, que tentou responder as questões que o roteiro original deixou em aberto. Infelizmente, esta hq nunca foi traduzida para o português.


Com certeza vale a pena dar uma olhada nesta obra trash, desde que você goste de obras cinematográficas muito ruins e de baixo orçamento. Se for assim, o filme poderá resultar bastante divertido.

domingo, 17 de abril de 2022

A Noite do Terror

 

A Noite do Terror (1981)

Durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, um tipo de cinema surgiu e cresceu rapidamente, se aproveitando do crescente mercado de filmes e, posteriormente, do VHS, e abusando da falta de informação de que padecia a maioria dos amantes de cinema na época. Era o cinema exploitation.

Basicamente, o cinema exploitation se baseava em encontrar algum gênero cinematográfico que estivesse em alta e explorá-lo até o limite do possível, produzindo filmes de baixa qualidade, com um orçamento mínimo e tentar disfarçar o nível putrefato de ruindade dessas obras com cenas de nudez e violência e/ou pegando carona em filmes melhores que estavam atraindo um bom público na época. Com amplas doses de falta de vergonha na cara, diretores inescrupulosos produziram sequências falsas de filmes famosos, tais como “Alien 2- Sulla Terra” (1980), de Ciro Ippolito e Biagio Proietti, “O Último Tubarão” (1981), de Enzo G. Castellari e “Zumbi 3” (1988), que contou com o trabalho em conjunto de três lendas do exploitation italiano, os senhores Lucio Fulgi, Claudio Fragasso e Bruno Mattei.


O cinema exploitation floresceu em vários lugares, principalmente em aquelas nações que tinham uma indústria de cinema em nascimento e onde os envolvidos nesta indústria utilizaram os filmes exploitation como uma forma de conseguir arrecadar um pouco de dinheiro para seus projetos. Alguns dos países onde o cinema exploitation conseguiu alcançar um enorme potencial foram Espanha, Hong Kong, Austrália, Brasil (com nossas “pornochanchadas” e a mitológica Boca do Lixo) e, é claro, os Estados Unidos. Mas, o país que mais contribuiu para esse gênero do cinema foi, de longe, a Itália. Os italianos conseguiram conjugar a “criatividade” de seus roteiristas e diretores com uma total falta de limites, tanto no campo ético quanto no campo moral e legal, para produzir algumas verdadeiras obras-primas do cinema de baixa qualidade.

Com o crescimento do exploitation, surgiram várias vertentes deste gênero, com as principais sendo: o nazisploitation (filmes mequetrefes sobre nazistas), o brucexploitation (filmes vagabundos de artes marciais com clones de Bruce Lee), o blaxploitation (filmes de baixo orçamento com elenco quase que exclusivamente composto por atores negros), o canibalexploitation (filmes de péssima qualidade sobre tribos de canibais em lugares isolados) e o zombiexploitation (filmes pútridos com zumbis muito mal feitos).

"Ilsa, A Mulher Lobo das SS" (1974), um dos Nazisploitation mais famosos
"Blacula, O Vampiro Negro" (1972), obra-prima do Blaxploitation
"Cannibal Ferox" (1981), um Canibalexploitation típico

E foi justamente baseado nesta última vertente que o diretor italiano Andrea Bianchi resolveu apostar. Conhecido por seus filmes exploitation com muita violência, nudez e insinuações sexuais, tais como “Nua para o Assassino” (1975), “Uma Fresta no Teto” (1972) e “Morbosamente Vostra” (1985), Bianchi contratou o também italiano Piero Regnoli para escrever o roteiro, juntou um grupo de atores conhecidos na época por participarem nesse tipo de filmes apelativos e, com um orçamento ínfimo, produziu A Noite do Terror (Le Notti del Terrore, no original), uma obra de gosto extremamente duvidoso.

O filme começa com o professor Harris (Raimondo Barbieri), um senhor barbudo que parece estar fazendo escavações arqueológicas em um antigo túmulo etrusco. O homem parece descobrir algum segredo oculto durante suas escavações, mas antes que possamos descobrir do que se trata, ele volta ao túmulo para escavar mais e acaba sendo atacado e morto por um bando de zumbis que emergem das catacumbas.

Pouco depois, vários veículos chegam na villa onde o professor Harris estava realizando seu trabalho. São alguns casais de amigos que o professor convidou para passarem alguns dias juntos com ele e aos quais pretendia revelar alguma informação importante. O principal casal é composto por Evelyn (Mariangela Giordano), George (Roberto Caporalli) e seu filho Michael (Pietro Barzocchini). E aqui somos apresentados a uma das principais características do exploitation italiano, os nomes “americanizados”. Como a maioria dos filmes produzidos na Itália tinham como objetivo o mercado americano de VHS, era comum que os personagens tivessem nomes de estilo americano. Também era comum que os atores, diretor e demais membros da equipe tivessem seus nomes alterados nos créditos, de modo a soar mais americanos.

Os casais se instalam na casa e são informados pelos empregados que o professor está ocupado com suas escavações, mas que virá recebê-los assim que for possível. Após se acomodarem, os casais aproveitam para fazer um pouco de sexo, afinal estamos em um filme exploitation italiano, onde é praticamente obrigatório mostrar nudez e cenas de sexo semiexplícito. É então que Evelyn e George acabam sendo surpreendidos em meio ao ato sexual por seu filho Michael. Como se a situação já não fosse incômoda e constrangedora o suficiente, o menino atua de forma muito estranha e perturbadora, com um olhar vidrado e uma expressão muito bizarra no rosto.

E esse é o maior triunfo desse filme, a (má) atuação de Pietro Barzocchini (ou Peter Bark, seu nome “americanizado” que aparece nos créditos), um ator que já tinha cerca de 30 anos na época das filmagens, mas que foi escalado para fazer o papel de um garoto de 13 anos. Como o ator sofria de um tipo raro de nanismo e seu tipo físico era bastante similar ao de uma criança, os produtores acharam que seria uma boa ideia colocá-lo para interpretar o filho do casal George e Evelyn. Porém, se esqueceram de reparar que o ator tinha a cara de um homem adulto, além de ter uma expressão bizarra e aterradora em alguns momentos. Isso sem falar que Pietro é um ator medíocre (mas isso pode ser dito de todos os “atores” desse filme).

Pois foi exatamente toda a bizarrice de vermos um homem adulto (tentar) atuar como uma criança na tela, aliado a toda a estranheza que as expressões de Pietro conseguem causar no público, que marcaram este filme e o converteram em um clássico cult. Sejamos sinceros, o filme é uma porcaria. As atuações são péssimas, o “roteiro” é ridículo e as maquiagens dos zumbis são uma atrocidade (ao ponto de um deles estar usando uma máscara do Frankenstein de Boris Karloff, com uma peruca e um pouco de sangue falso para disfarçar). Entretanto, vale a pena assistir essa obra tosca apenas para ver o senhor Pietro “atuando” como Michael.

Na manhã seguinte, após o café da manhã, os casais se separam e vão explorar a propriedade. Alguns vão tirar fotos, aproveitando os jardins da propriedade, enquanto outros apenas buscam aproveitar um pouco de tempo ao ar livre. De repente, coisas misteriosas começam a acontecer na casa. As luzes piscam e as lâmpadas estouram, deixando os empregados apavorados. Enquanto isso, os zumbis estão livres e se aproximam cada vez mais.

George e Evelyn vão até um dos porões da casa para ver as estatuas e demais artefatos recuperados pelo professor em suas escavações e resolvem aproveitar o lugar para praticar um pouco de... tiro ao alvo? Além da falta de sentido da cena, Michael se comporta o tempo todo como um moleque mimado e não deixa seus pais em paz um segundo sequer.

Um dos casais, composto por Mark (Gianluigi Chirizzi) e Janet (Wilma Truccolo), é atacado pelos zumbis, mas consegue escapar. Na cena seguinte, somos brindados com a fala mais memorável do filme, quando Michael cheira um pano velho que estava jogado no porão junto aos outros artefatos. O “menino” corre até sua mãe e diz: “Mamãe, este pano cheira a morte!”. Realmente, o roteiro deste filme é um primor no que se refere a diálogos.

Logo depois, os zumbis entram no porão e atacam a família. George tenta se defender com sua pistola, enquanto Evelyn e Michael fogem. No fim, George acaba morto pelos zumbis.

Os ataques prosseguem. Janet prende seu pé em uma armadilha para ursos e Mark tem que lutar contra os zumbis para protege-la. A luta só termina quando casal Leslie (Antonella Antinori) e James (Simoni Mattioli) chega para ajudá-los. Logo, todos os sobreviventes terminam encurralados na casa.

E é na casa que somos brindados com outra cena memorável, quando Michael, se aproveitando do desespero de sua mãe, tenta enfiar sua mão embaixo do vestido de Evelyn, que reage dando um tapa no filho, o qual pergunta: “Por quê? Sou seu filho!”. Então, finalmente entendemos por que Pietro Barzocchini foi escolhido para esse papel. Com certeza, os responsáveis pensaram que seria muito estranho colocar um menino para interpretar esta cena de incesto e optaram por um ator adulto. Entretanto, o resultado ficou ainda pior e a cena é extremamente constrangedora e incômoda.

O filme foi, em grande parte, filmado na Villa Parisi-Borghese, em Frascati, uma bela propriedade construída em 1604. Localizada a 21 km de Roma, a villa foi utilizada como cenário para vários filmes durante essa época, entre os quais “Sangue para Drácula” (1974) e atualmente pode ser alugada para cerimônias como festas e casamentos. Existe até um site com informações sobre a villa, se alguém estiver interessado em conhecer mais sobre o lugar: http://www.parisivilla.com/location/. Outra parte das cenas foi filmada com cenários reutilizados de outros filmes, nos estúdios De Paolis, em Roma. A diferença entre esses cenários é muito visível, visto a pobreza dos cenários em estúdio em comparação com a qualidade das cenas gravadas na villa.

Villa Parisi-Borghese

Como era comum na época, A Noite do Terror recebeu vários nomes ao ser lançado no exterior, tais como “Nights of Terror”, “Burial Ground” ou “Massacre Zombie”. No Brasil não foi diferente e o filme, além do título já mencionado, recebeu os nomes de “Noites de Terror” e “A Noite dos Mortos-Vivos” (é claro que não poderia faltar um plágio a obra de George Romero). Esse tipo de confusão era comum na época, pois cada distribuidora colocava no filme o título que lhe viesse à mente, não importando se a tradução era a correta ou se o título não tinha nada a ver com a obra em si.

No Brasil o filme também recebeu uma capa que não tinha nada a ver com a obra, com um zumbi armado e vestindo um uniforme nazista

Com o passar dos anos, A Noite do Terror conseguiu reunir uma grande legião de fãs e recebeu o status de filme cult, sendo considerado uma obra prima da tosquice cinematográfica.

Embora seja um filme terrivelmente ruim, vale a pena dar uma conferida se você for um fã hardcore de filmes trash.


sábado, 16 de abril de 2022

Terror na Ponte de Londres

 

Terror na Ponte de Londres (1985)

Ponte de Londres. Inglaterra, 1888.


O terrível assassino em série Jack, o Estripador é encurralado pelo Scotland Yard sobre uma das pontes do rio Tamisa. Ao tentar escapar, o assassino é baleado várias vezes. Ferido mortalmente, Jack se apoia na ponte, o que faz com que uma das pedras se solte e caia no rio, junto com o corpo de Jack.

Ponte de Londres. Lago Havasu, Arizona, 1985.

A pequena cidade de Lake Havasu comprou a antiga ponte de Londres e a transferiu da Inglaterra para as margens do lago que dá nome a cidade. Recentemente, a última pedra que faltava na ponte foi encontrada no fundo do Tamisa e enviada para a cidade, que preparou um grande festival pra comemorar o termino da reconstrução da ponte.

Porém, na noite anterior ao festival, uma mulher chamada Alice Williamson (Barbara Bingham) caminha pela ponte e acaba sofrendo um pequeno acidente. A mão da mulher se corta e uma gota de sangue cai sobre uma das pedras da ponte, justamente a mesma pedra em que o sangue do Estripador caiu a quase cem anos. Em contato com o sangue da mulher a pedra começa a fumegar e a emitir estranhas luzes. E então, inexplicavelmente, Jack, o Estripador renasce e ataca a mulher, matando-a degolada.

No dia seguinte, enquanto a cidade comemora o término da ponte, o marido da mulher assassinada, Dave Williamson (Michael Boyle), procura a polícia para denunciar o desaparecimento de sua esposa. Inicialmente, ninguém parece dar importância ao homem. Apenas Don Gregory (David Hasselhoff), um policial recentemente transferido de Chicago e que carrega um trauma de seu passado, resolve dar atenção ao marido preocupado e começa uma investigação sobre o desaparecimento.

Pouco depois, o corpo de Alice é encontrado por Angie (Stepfanie Kramer), a jovem dona de um barco de turismo e Don acredita que se trata de um caso muito sério. Porém, as autoridades locais estão muito mais preocupadas com o turismo e não pretendem dar atenção as preocupações de Don, que precisará contar com o auxílio de Angie (com quem começará um romance).

Enquanto Don investiga o assassinato, Jack (Paul Rossilli) está tentado retornar ao seu tempo e lugar de origem. De alguma forma, que o roteiro nunca explica, o assassino sabe que precisa matar a mesma quantidade de mulheres que matou em Londres e nas mesmas datas dos assassinatos originais e assim poderá voltar no tempo.

Terror na Ponte de Londres é um filme feito para a televisão pela famosa rede de televisão nova iorquina NBC e acabou sendo lançado com vários nomes, tais como “Bridge Across Time” (Ponte Através do Tempo), “Arizona Ripper” (Estripador do Arizona) ou “Terror at London Bridge”, nome pelo qual seria mais conhecido e no qual seria baseado o título que recebeu no Brasil. Com direção de E. W. Swackhamer (conhecido por trabalhar em séries de TV como “Lei e Ordem”) e roteiro de William F. Nolan (conhecido por ter escrito o roteiro do filme clássico de ficção cientifica “Fuga no Século 23”, de 1976), o filme foi feito com um orçamento mínimo (o que fica óbvio durante toda a produção) e buscava atrair o público com a presença de atores conhecidos e um roteiro absurdo, mas que prometia ser muito divertido.


Nos anos 1980, David Hasselhoff (também conhecido pelo apelido de “The Hoff”) estava em seu auge devido ao sucesso da série “A Super Máquina” (1982-1986), onde interpretava Michael Knight, um combatente do crime que é auxiliado por K.I.T.T., um carro ultra moderno e inteligente, cheio de recursos. Também atuaria como o salva-vidas Mitch Buchannon em “S.O.S. Malibu” (1989-2001), ao lado de Pamela Anderson e Carmen Electra. Curiosamente, tanto “A Super Máquina” (Knight Rider, no original) quanto “S.O.S. Malibu” (Baywatch, no original) também foram produzidas pela NBC. Assim sendo, não é de estranhar que Hasselhoff fosse escolhido para estrelar um filme produzido pelo mesmo canal de televisão onde já trabalhava.

David Hasselhoff e K.I.T.T. em "A Super Máquina"
David Hasselhoff em "SOS Malibu". E possível ver por que o ator era um símbolo sexual nos anos 1980
David Hasselhoff atualmente

Outra estrela conhecida que aparece nesta obra é Adrienne Barbeau, que interpreta a bibliotecária Lynn Chandler. Barbeau era um símbolo sexual nos anos 1980 e estrelou vários filmes conhecidos dessa década, como “A Bruma Assassina” (1980) e “Fuga de Nova York” (1981). Ela também havia sido casada com o grande diretor John Carpenter, com quem tinha se divorciado um ano antes de filmar este filme com Hasselhoff.

Adrienne Barbeau como Lynn Chandler
Adrienne Barbeau atualmente

Todavia, apesar de ter alguns rostos conhecidos do público, o filme sofre muito com as atuações forçadas e caricatas de praticamente todos os atores que aparecem em tela.

Além das atuações de baixa qualidade, o roteiro deste filme é igual um queijo suíço, ou seja, cheio de furos. Para começar, nunca é explicado exatamente como acontece a magia que permite que Jack, o Estripador seja transportado por quase um século. A situação simplesmente acontece e pronto. Da mesma forma, como é possível que Jack saiba que tem que matar a mesma quantidade de mulheres e nas mesmas datas de seus assassinatos originais e que assim poderá voltar ao seu tempo? Em certo momento, o assassino escreve uma carta aos jornais afirmando que “a pedra me disse para fazê-lo”. Mas tudo é muito vago e sem desenvolvimento nenhum.

Igualmente vago é a forma como Don Gregory descobre que o autor dos assassinatos é Jack, o Estripador original. Por acaso o policial estava lendo livros sobre o famoso assassino londrino e juntou as informações com o que lhe disse sua colega da equipe de perícia (Cameron Milzer), e pronto: Jack, o Estripador é o culpado. Aliás, o conceito de “sangue antigo” que a perita utiliza é de fazer qualquer especialista em criminologia querer arrancar os olhos de vergonha.

Talvez o maior erro do roteiro tenha sido o de desperdiçar a figura de Jack, o Estripador, talvez o maior e mais famoso assassino de todos os tempos, em uma trama tão desinteressante e pouco elaborada. 

Aparentemente, além de ser um assassino frio e implacavel, Jack, o Estripador também era um expert em camuflagem. Veja como ele consegue se mesclar perfeitamente em meio a vegetação.

O filme ainda tenta se levar a sério e inserir alguns momentos de drama que são completamente inúteis e terrivelmente chatos. Para completar, o “plot twist” que deveria ser o clímax do filme é revelado logo no fim do segundo ato, desperdiçando a única boa ideia que o filme estava tentando desenvolver.

Don Gregory conta seu trauma (que não importa para ninguém e não serve para praticamente nada na trama) para Angie em uma cena absolutamente chata

Porém, o mais interessante de tudo relacionado a esse filme é o fato de que ele está baseado em um evento real.

Não, Jack, o Estripador não reviveu nos anos 1980 e começou a matar pessoas. O evento real em que se baseou esta obra foi a ponte de Londres transferida para os Estados Unidos.

Na primeira vez em que vi este filme, pensei que a história de que a ponte de Londres tinha sido transferida da capital britânica e remontada em uma pequena cidade nos Estados Unidos era uma das muitas loucuras do roteiro, algo inventado para dar um pouco mais de sentido ao absurdo ressurgimento de Jack, o Estripador nos dias atuais. Entretanto, a história da ponte, apesar de incrível, é real. Aliás, sendo sinceros, este talvez seja o único ponto interessante neste filme.

A cidade de Londres possui várias pontes que atravessam o rio Tamisa. A mais famosa de todas é a Ponte da Torre de Londres, construída entre 1886 e 1894. Porém, existem muitas mais, algumas ainda mais antigas.

Pontes de Londres. Nessa imagem é possível ver três delas.
Ponte da Torre de Londres

Uma destas pontes, inaugurada em 1831, acabou se tornou um problema para o governo londrino já no inicio de 1900, quando se descobriu que ela estava afundando lentamente no rio, devido ao trafego intenso que a atravessava todos os dias, gerando um estresse que sua estrutura não estava preparada para suportar. Em 1924, algumas medições mostraram que o lado leste da ponte estava nove centímetros mais baixo que o lado oeste. O problema estava se agravando lentamente, mas a burocracia típica de qualquer governo acabou fazendo que a situação se arrasta-se, até que foi tomada a decisão de colocar a ponte a venda.

Foi então que surgiu Robert P. McCulloch, um investidor americano do ramo petrolífero que tinha fundado recentemente uma pequena cidade nas margens do lago Havasu, um lago artificial gerado por uma represa no rio Colorado. A cidade estava localizada nas terras que o governo dos Estados Unidos tinha cedido para McCulloch, com o acordo de que ele as desenvolvesse economicamente. Ao saber sobre a oferta da venda da ponte, McCulloch imaginou que a transferência dessa ponte para sua cidade ajudaria a atrair turistas para a região. Assim sendo, ofereceu 2,4 milhões de dólares e arrematou a ponte.

A ponte sendo remontada no Arizona
Robert P. McCulloch e sua ponte

Em 1968, a ponte foi desmontada e transportada em navio até a Califórnia, nos Estados Unidos. Depois, seguiu em caminhões até o interior do Arizona, onde foi remontada. Como não havia um rio no local, apenas o lago artificial, um canal de um quilometro de comprimento foi escavado para que as águas do lago corressem por debaixo da ponte. Toda a operação, incluindo a compra, o transporte, a reconstrução e a escavação do rio artificial, custaram mais de 12 milhões de dólares para Robert P. McCulloch. Entretanto, seu plano deu certo e a região acabou se desenvolvendo nos anos seguintes e ele conseguiu recuperar seu investimento com a venda de terrenos na cidade.

A obra foi inaugurada em 10 de outubro de 1971, com uma grande festa, que contou inclusive com a presença do prefeito de Londres. Atualmente, a ponte é um grande ponto turístico e atrai milhões de visitantes todos os anos. Se você quiser saber mais sobre esta incrível história, lhe recomendo este site:  https://www.magnusmundi.com/como-uma-ponte-de-londres-foi-parar-na-america/, onde obtive a maioria dos detalhes aqui colocados e algumas das imagens que ilustram esta resenha.

A ponte de Havasu Lake atualmente

E aí está. Terror na Ponte de Londres é um filme absurdo, com um roteiro insano e cheio de falhas e coroado por atuações ridículas, mas que vale a pena conhecer por todos os seus pontos históricos muito interessantes e por ser um óbvio produto de seu tempo.


 

 

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